Opinião
Música | Allen Toussaint
Não foi o aclamado virtuoso, mas foi certamente o ourives e estratega. Revia arranjos até ao detalhe, ajustava tonalidades para servir a voz que tinha à frente e pensava cada música como parte de um desenho maior. Essa disciplina tornou-o uma referência e inspiração para muitos
Há produtores que moldam carreiras. Allen Toussaint moldou uma cidade e fez isso quase sempre na sombra.
Nasceu em 1938 e, ainda adolescente, já estava sentado ao piano como quem ocupa um posto de trabalho. Em Nova Orleães aprende-se cedo que o ritmo não é decoração: é sobrevivência. Nos anos 60, Toussaint começou a escrever e produzir canções que se tornariam sucessos nas vozes de outros, como Lee Dorsey ou Ernie K-Doe.
Sem grande protagonismo ou alarido foi afinando uma gramática musical própria: arranjos depurados, metais que entram apenas quando fazem falta, groove a balançar com naturalidade. Nada em excesso e tudo com uma função e espaço próprio.
Enquanto Detroit mecanizava a soul e Memphis lhe dava nervo e transpiração, Nova Orleães ganhava com Toussaint uma elegância quase invisível. Ele percebia que o som da cidade pulsava no intervalo entre notas, naquele ligeiro atraso que transforma um compasso em identidade. Trabalhou com Dr. John, com The Meters e foi consolidando a espinha dorsal do funk, antes sequer desse rótulo existir.
Com Marshall Sehorn criou a Sansu Enterprises e foram fazendo história no Sea-Saint Studios, um dos centros nevrálgicos da produção da cidade nos anos 70. Ali não se faziam apenas discos: fixava-se um som.
Toussaint não foi o aclamado virtuoso, mas foi certamente o ourives e estratega. Revia arranjos até ao detalhe, ajustava tonalidades para servir a voz que tinha à frente e pensava cada música como parte de um desenho maior. Essa disciplina tornou-o uma referência e inspiração para muitos.
Paul McCartney reconheceu-lhe a sofisticação harmónica; o funk herdou-lhe a contenção; mais tarde, o indie e o lo-fi reciclariam essa mesma lógica de economia expressiva.
Em 2005, o furacão Katrina interrompeu-lhe a rotina e quase apagou um arquivo de vida. Casa inundada, instrumentos perdidos, enfim, histórias que agora também nós conseguimos entender. Mudou-se para Nova Iorque e, durante algum tempo, parte do ecossistema criativo de Nova Orleães ficou suspenso. Ainda assim, Toussaint continuou a trabalhar. The River in Reverse, com Elvis Costello, soou a resistência e, passado algum tempo, também ele regressou à sua cidade e continuou a trabalhar e a tocar e a ajudar a reerguer. Deixou-nos em 2015, estava em Madrid e tinha acabado de dar um concerto.
O legado de Allen Toussaint não se mede apenas pelas canções que assinou. Está na consolidação de uma identidade. Se Nova Orleães continua a soar diferente de qualquer outro lugar no mapa americano, é porque alguém, durante décadas, tratou de criar, manter e ajudar a reerguer essa arquitetura musical.