Opinião

Música | A garota de Setúbal

20 out 2022 13:03

Cada palavra cantada é um tiro certeiro nas nossas emoções, que cada um irá gerir como muito bem entender

Tudo começou em 2019 com o disco de estreia Rua das Marimbas, mas foi agora em 2022 com o álbum 2 de abril que Cátia Mazari Oliveira viu o seu projeto artístico A Garota Não atingir o merecido reconhecimento, até porque com este segundo disco a artista conseguiu obter um resultado mais complexo e menos minimalista, deixando-se influenciar por correntes musicais várias, tais como o hip-hop, a eletrónica, a pop, a folk ou mesmo o rock - e para isso contou com as colaborações de Chullage, Ana Deus, Francisca Camelo, Ohmonizciente ou Maria Roque.

A Garota Não (nome artístico que surgiu certo dia após um pedido para cantar “Garota de Ipanema”, ao qual Cátia respondeu: “A “Garota” não, por favor…”) vai bem lançada para conquistar a crítica com o melhor disco nacional de 2022 e, se tal vier a acontecer, será bem merecido – aqui por estes lados, até ao momento, não se ouviu nada melhor em português.

Em 2 de abril, cantam-se temas tão relevantes como a desigualdade de género, a arte, a ascensão de políticas perigosas ou a crise dos refugiados. Se por um lado percebemos algum descontentamento face a problemas tão graves, por outro conseguimos ver alguma luz ao fundo do túnel através das 20 canções que integram este trabalho.

É inevitável comparar a arte de A Garota Não com as canções de Zeca Afonso, Sérgio Godinho ou José Mário Branco. Talvez esteja aqui uma nova cantora de intervenção, com ritmos do século XXI, mas onde a palavra (e o Amor...) continua a ser a melhor arma de combate de sempre.

Em 2 de abril encontramos também memórias, não fosse 2 de abril o nome do bairro onde a artista cresceu; memórias que nos levam por momentos ora sombrios, ora luminosos. Cada palavra cantada é um tiro certeiro nas nossas emoções, que cada um irá gerir como muito bem entender. Ora atentem neste arranque do disco com o tema “Canção sem final”: “Podem decretar o fim da arte É como decretar o fim da chuva Há sempre alguém que sonha em qualquer parte E a nossa voz nunca será viúva”.

Esta Garota não é de Ipanema, é de Setúbal, mas quando canta “O mundo inteirinho se enche de graça, e fica mais lindo por causa do amor”.