Opinião
Música | 2025 em revista
O Jazz em Agosto apresenta sempre projetos de vanguarda e este ano voltou a surpreender – nota 10 para o belíssimo concerto de Rafael Toral
Aqui estamos em 2026 e começo por desejar um excelente ano novo. É tempo de olhar para a frente, sim senhor, mas também é altura de rescaldos e balanços. Não entrarei em domínios político-trágicos, nem nas habituais listas dos melhores do ano, que até aprecio. Estive aqui a puxar a fita atrás e escolhi três momentos que me encheram as medidas. Menos é mais. E com notas e tudo, qual comentador televisivo.
A Companhia Olga Roriz celebrou 30 anos e voltou a apresentar no Centro Cultural de Belém o espetáculo A hora em que não sabíamos nada uns dos outros, de Peter Handke, com direção de Olga Roriz, com elenco de 32 intérpretes, que fazem e fizeram parte da Companhia ao longo destes anos. Nota 10 para esta liberdade criativa onde a dança e a performance de vários personagens nos contam uma história, real ou imaginada, a partir de uma praça pública, onde todos os dias passam milhares de pessoas, cada uma com o seu perfil.
Na Fundação Calouste Gulbenkian, dois acontecimentos extraordinários marcaram a agenda cultural de 2025: o Festival Jazz em Agosto e a exposição Complexo Brasil. O Jazz em Agosto apresenta sempre projetos de vanguarda e este ano voltou a surpreender – nota 10 para o belíssimo concerto de Rafael Toral que nos levou às profundezas do seu Spectral Evolution, um álbum que evoca a natureza e que pôde ser escutado ao vivo de forma irrepreensível. Nota 10 também para o trio MOPCUT de Audrey Chen, Julien Desprez e Lukas König que contou com o MC Dälek e a indomável ativista Moor Mother, numa estreia mundial que nos deixou a pensar que cocktail era aquele com doses elevadas de noise, jazz, improvisação livre e spoken word.
Complexo Brasil vem de 2025, mas continua em 2026 e está patente na Gulbenkian, em Lisboa, até ao dia 17 de fevereiro. O leiriense que gosta de cultura não pode falhar esta exposição que questiona as relações entre Portugal e Brasil ao longo dos anos e que apresenta uma seleção de obras e iniciativas absolutamente imperdíveis. Com curadoria de José Miguel Wisnik, Milena Britto e Guilherme Wisnik, a exposição vai mais além do habitual diálogo entre países irmãos, mostrando uma cultura brasileira sem filtros onde, inevitavelmente, Portugal teve um papel determinante – nas coisas boas e nas coisas más. Mas é isso mesmo que acontece nas relações entre irmãos, certo? Nota 10, claro.
O espaço acabou, mas deixo aqui ainda uma nota alta (8?) para o concerto de King Gizzard & The Lizard Wizard e os filmes Folhas Caídas, de Aki Kaurismäki, e Onde Aterrar, de Hal Hartley – os meus preferidos de 2025.