Opinião
Letras | Que feitiçaria é esta?
Paulina não nos larga em nenhum momento. Pelo contrário, agarra-nos com uma prosa que apetece destacar do livro e fixar em outdoors para que todos sintam a mesma vertigem literária. Se a boa literatura é garantida, a história e as estórias elevam-nos para dimensões paralelas fora do que conhecíamos até agora
Há vidas que davam livros e há livros que davam filmes ou séries. Este livro daria algo maior, ainda não inventado.
É a moçambicana Paulina Chiziane que nos conduz ao universo maior do seu Sétimo Juramento, aclamado com o Prémio Camões em 2021. Podemos ir com a confiança de uma narrativa bem dirigida, mas estar preparados (ou não) para paragens obrigatórias que darão prioridade ao reboliço que se engendra no nosso sistema neurológico. Paulina não nos larga em nenhum momento. Pelo contrário, agarra-nos com uma prosa que apetece destacar do livro e fixar em outdoors para que todos sintam a mesma vertigem literária.
Se a boa literatura é garantida, a história e as estórias elevam-nos para dimensões paralelas fora do que conhecíamos até agora.
Chiziane faz-nos uma visita guiada ao mundo real de um Moçambique ferido, de um tempo manipulado por corruptos. "As palavras fome, guerra, greve, fuga, massacre, roubo, desgraça, fazem hoje parte do discurso da maioria" - anuncia a autora logo no início do livro.
David, à frente de uma empresa estatal, teme a revolta dos seus operários, como está a acontecer noutras indústrias. Receia que lhe descubram as falcatruas, as transferências dos lucros para seu benefício. É o sinal de alerta para a entrada no mundo fantástico, da magia negra que se busca na ancestralidade africana. Rituais como a ingestão de sangue de bestas, a desfloração de jovens virgens, as massagens de serpentes… levam David num caminho sem volta que lhe afecta toda a família. Do lado contrário das trevas, busca-se a luz, as forças do bem, a quebra dos feitiços. Também aqui os conhecimentos antigos se revelam nos detalhes da renda literária de Paulina.
A leitura é enriquecida de vocábulos como “bantu” (povo), “Kufemba” (diagnóstico de expulsão dos maus espíritos) ou “xigno” (fantástico) que aprofundam ainda mais o mergulho num mundo inquieto em que é necessário beliscarmo-nos para regressar à dimensão terrena.
Este livro é uma “trip” isenta de ácidos. É uma dose concentrada em 280 páginas que promete emoções contraditórias, sensações de êxtase, deambulações entre o sensível e o inteligível, o empírico e o imaginário.