Opinião

Letras | Luís Mourão & Rui Pedro Lourenço (2023), O passar do tempo OU o património das pedras que (nos) habitam o espaço…

25 set 2026 08:14

Permite a todos os leitores reviver, conhecer e amar reflexiva e criticamente o chão que pisamos e a monumentalidade dos edifícios que nos constituem enquanto leirienses e nos quais convivemos na vida social

Quando me inscrevi na visita orientada “As pedras do convento de Santo Agostinho”, por Anabela Veiga e Hugo Rodrigues, dia 19 de setembro, integradas no ciclo das Jornadas Europeias Património Leiria 2026, sob o lema “Reviver, resistir, reinventar”, nunca imaginei o encanto que uma pedra quase redonda, achatada, branca pode ter na leitura do nosso património. E, no entanto, ensino aos futuros educadores e professores o poema de C. Drummond de Andrade, “No meio do caminho tinha uma pedra”…

O entusiasmante workshop voltou a fazer-me considerar a belíssima e muito útil coleção de 6 volumes que a ed. Barca do Inferno, em conjunto com a CMLeiria, tem vindo a publicar desde Nós. Narciso Costa, Luís Fernandes, Lino António e António Varela (2018), passando por Leiria medieval. Uma vila de mouros, judeus e cristãos (2019); Os pés de Iria (2020); O tamanho do mundo. Como Francisco Rodrigues Lobo fez crescer Leiria (2021); A criança do Lapedo (2023) até O passar do tempo (2023), com texto de Luís Mourão (LM). Todos os volumes são magnificamente ilustrados por Rui Pedro Lourenço (RPL) e, além de LM, Mafalda Brito (MB) foi autora de alguns dos volumes.

A leitura do volume O passar do tempo – que envolve uma visita pelo tempo do património leiriense inscrito na pedra – permite a todos os leitores reviver, conhecer e amar reflexiva e criticamente o chão que pisamos e a monumentalidade dos edifícios que nos constituem enquanto leirienses e nos quais convivemos na vida social, desde a pré-história, passando pela época romana, Idade Média, Invasões francesas do século XIX, grande alteração urbanística e crescimento dos séculos XIX/XX. De facto, MB é também coautora deste volume, já que os textos técnicos que acompanham a narrativa imaginativa, inebriante e surpreendente de imaginação de LM, – sinalizados com um asterisco, para não se confundirem com a ficção literária – fornecem ao leitor indicações sérias, históricas e de rigor científico para que os leitores mais pragmáticos nunca percam o fio do real no labirinto da imaginação. No mesmo sentido vai a revisão científica da eficiente equipa do Museu de Leiria com quem já tive o privilégio de colaborar, aprendendo sempre coisas novas (Cátia São José, Mário Coelho, Sara Marques da Cruz, Vânia Carvalho). A beleza das ilustrações de RPL acompanha deliciosamente a escrita fascinante e subtil, inteligente e provocante, divertida e crítica, reflexiva e filosófica, sensível e compassiva, conhecedora e cúmplice do imaginário e do discurso infantil e renunciando a pesar o mundo humano pela balança do maniqueísmo. A introdução das personagens com as suas alcunhas – Bolinhas; Abóbora; Pernas de Alicate; Lourdinhas, a Peste; o filho e o pai sem nome que acompanham o crescimento da cidade e a construção do teatro J. Lúcio da Silva; e o supersónico menino da trotinete, a caminho do futuro da pedra e do leitor-menino-ideal de hoje e do por vir – revela a mestria de LM. Talvez a personagem fundamental, a que une o coração do tempo e do espaço e grão de poeira do património, seja a pedra branca com um veio escuro, que sempre viaja de quadro para quadro:

“Uma pedra branca, circular, espalmada, com uma linha negra num dos lados, sem nada de espacial. E, num gesto largo, avaliando todos os parâmetros cósmicos para medir as distâncias, atirou a pedra ao rio, à velocidade da luz. Não era impossível que ela um dia chegasse ao mar. Talvez, sim. Talvez, não.” (opus cit., [sem p.; no final do texto])

Com o passar do tempo, a pedra diz - e continuará a dizer - o que a atenção patrimonial, bem-educada, sabiamente revelará da presença humana neste estranho e mutável planeta: inscrita nos pormenores dos dias habitados e nas pedras pisadas ou atiradas...