Opinião
Letras | Filipa Martins (2026), No meu fim está o meu começo OU o labirinto da identidade
Um livro sobre pessoas comuns, histórias íntimas, familiares, algumas vezes invisíveis, cruzando a memória particular com a memória histórica
Encontrei Filipa Martins (n. 1983) na Biblioteca de Leiria, há cerca de três anos, quando acedeu ao convite de apresentar a excelente biografia de Natália Correia, O dever de deslumbrar (2023), sobre cujo rigor e qualidade já respirei nesta coluna. Veio acompanhada da filha Francisca e ‘ganhei’, encantada, os gatafunhos rabiscados da menina ao lado da dedicatória afirmativa da mãe. O ensaio biográfico é um dos géneros mais exigentes em labor investigativo e capacidade analítica e de categorização, bem como de ligação (audaciosa e corajosa) entre as linhas subjetivas e inconscientes que enredam vida e literatura. Porém, não tinha lido nenhum dos livros literários: nem Na Memória dos Rouxinóis (2018, prémio Manuel de Boaventura), nem Elogio do Passeio Público (prémio APE Revelação em 2008). Fiquei rendida com o recente No meu fim está o meu começo (abril de 2026).
É um livro sobre pessoas comuns, histórias íntimas, familiares, algumas vezes invisíveis, cruzando a memória particular com a memória histórica, das histórias reais da sua família (ainda a biografia – reminiscências autobiográficas, ficcionadas) até uma reflexão sobre o passado coletivo, numa ‘urgência cívica’, sem romantizar ou simplificar o passado. A narrativa segue o fluxo de consciência – entrecortado e ziguezagueante, impulsivo e raramente linear – de Isabel, uma enfermeira cuidadora da mãe, na fase terminal de demência. Partindo desta relação atormentada, difícil e muito exigente, visitam-se várias gerações de mulheres sob o Estado Novo, cintilações de uma política que alcançava instituições e lares: desde o vestuário, aos gestos, silêncios e relações. Entrevistada por Pedro Castro em abril, sobre a existência de ‘mulheres sem voz durante o Estado Novo’, Filipa Martins teoriza sobre o cerne temática utilizado: “Há uma ideia de que, se não se falasse de política, não havia problemas. Isso não é verdade. A política estava na pobreza, nas relações, no que se punha na mesa. Falo de mulheres que trabalharam nas minas, que perderam filhos na guerra, que não sabiam ler e recebiam notícias devastadoras pela boca de outros. Muitas sofreram violência sem sequer terem palavras para a nomear.”
Maria Velho da Costa, Oscar Wilde e T. S. Eliot são as epígrafes escolhidas: o feminismo, o passado e o futuro, as passagens de mãe para filha e o papel da memória em tudo isso. Como se a narradora se autoanalisasse e, à medida que progride no seu carrossel pelo divã das memórias, fosse descobrindo as partidas que a fabricação das memórias nos cria, em função do querer do instante. A ligação a Teresa, a referência da infância; a construção, aos solavancos, da compreensão do insondável mundo dos adultos, a sua transformação e reajustamento durante a metamorfose da vida adulta; a vida amorosa como uma sucessão de enganos de reajustamento social; as descrições cruas e surpreendentes do ambiente social; o contexto, o ‘lodaçal’ em que se nasce, são imagens cinematográficas de qualidade excelente de um universo que o leitor reconhece e a memória lhe devolve: na aldeia; no bairro de lata; no hospital; nos lares; nos tribunais; nos calabouços da PIDE; nos jardins da vaidade humana.
Senti resquícios do atormentado mundo de Elena Ferrante, tanto nos imbrincados da intriga como nos abismos sociais expostos. Porém, o labirinto da identidade desta mulher Isabel, transita da mãe para a filha Sofia (encontros e desencontros entre mãe e filha), já que o enigma do desconhecimento da paternidade talvez seja o motor de busca, articulada numa linguagem pura e frontal de quem se habituou à auto-meta-psicanálise. Não círculo: espiral… o labirinto da identidade:
Cristalizamos a nossa biografia numa heterobiografia, falando da nossa vida como se fosse a vida de outra pessoa. Os acontecimentos simplificam-se e os gestos perdem cambiantes e tornam-se óbvias consequências uns dos outros. Resumidamente, caímos no logro da narrativa linear e do enredo único, que não é imune a um certo grau de dissociação. […] Mas e se uma nova descoberta colocar em causa a história que viemos a aprimorar com os anos? Assim, a lógica da narrativa de vida não implicaria um enredo único, mas vários itinerários, numa reinterpretação do passado a perspetivar o futuro. A releitura à luz de novas informações, mais do que a ação ou o enredo, mostrar-se-ia melhor analogia para a história individual. (opus cit., pp. 73-4)