Opinião

Letras | Álvaro Magalhães (2021), Para quê tudo isto? Biografia de Manuel António Pina OU o que permanece na efemeridade…

3 jul 2026 08:08

O ensaio de AM não é económico e nunca se escusa de apresentar com transparência (a da proximidade de MAP) o caminho sinuoso, irónico, crítico, consciente-enigmático da construção da figura literária de Pina

A minha leitura de Manuel António Pina (MAP: 1943-2012) inaugurou-se tardiamente, em 1989, e por razões profissionais, com alguns títulos da sua obra, dita para crianças: O Inventão (Aventuras do Maior Intelectual do Mundo) (1.ª ed. 1987) e Os Piratas (1.ª ed. 1986). Dois livros-encontro com a qualidade de uma escrita para crianças sem infantilizações e que fazem do leitor infantil o clímax da aventura da criação-reflexão-crítica sobre o mundo: a grande descoberta da infância como habitação da Casa do Ser, a poeira dos tempos assente na memória. Seguiram-se O Têpluquê e outras histórias (1.ª ed. 1995), O cavalinho de Pau do Menino Jesus (1.ª ed. 2004), O pássaro da cabeça (1.ª ed 2005), O país das pessoas de pernas para o ar (1.ª ed. 1973). A aparente aleatoriedade das datas da minha leitura com a data da primeira edição, agudiza-se bastante mais na obra para adultos, seja a de poesia, seja a estranha prosa de Os Papéis de K. (1.ª ed 2003), ou o imenso repositório de crónicas e entrevistas, com a publicação de MAP pela ed. Assírio & Alvim e o salto de projeção provocado.

A interferência e intermitência dos filtros (bolhas? lobbying?) da misteriosa esfera socio-literária, através do fio condutor da capacidade de uma editora projetar um escritor (portuense) ‘meio-desconhecido’ para o ‘esplendor da bolha do mundo literário’ (lisboeta) foi sentida por mim e outros. Álvaro Magalhães (AM: 1951), amigo íntimo de MAP e também ele escritor de literatura para a infância, dá conta frontalmente desta porosidade na Biografia de MAP – Para Quê Tudo Isto? (2021) – que esperou quase uma década para irromper e que o compasso do confinamento finalmente permitiu. Portugal não tem sido um país dos mais profícuos no género ensaístico ‘biografia’ (ao contrário de França ou Inglaterra), mas o êxito comercial de algumas ‘fotobiografias’ contribuiu para que algumas editoras (como é o caso da ContraPonto) apostassem nesta senda. Ainda e sempre a economia…

O ensaio de AM não é económico (479pp.) e nunca se escusa de apresentar com transparência (a da proximidade de MAP) o caminho sinuoso, irónico, crítico, consciente-enigmático da construção da figura literária de Pina, tão glorificada por Prémios literários de grande relevo e erguida no futuro da Cultura portuguesa. Disciplina o seu discurso em VI grandes Partes, balizadas cronologicamente (embora sempre contaminadas pela visão atemporal do ser no tempo que é o sujeito pensante AM) e que ajudam o leitor a arquitetar o monumento ao escritor, através do fulgor de epígrafes e títulos ‘roubados’ aos versos de MAP. Veja-se como o índice é, por si só, uma sinopse esclarecedora (e enigmática) do conteúdo do livro: I. A infância não se vê da infância (1943-1960); II. Porto de abrigo (1960-1970); III. Calma, é apenas um pouco tarde (1970-1980); IV. O sorriso do gato (1980-1990); V. Um sítio onde pousar a cabeça (1990-2000); VI. Diante de uma coisa imensa (2000-2012).

As densas páginas do ensaio reforçam que toda ‘a glória é uma coisa vã’; porém o que permanece do efémero da transição é a arrumação ininterrupta ao repositório artístico: As Casas não Morrem (curta-metragem de Inês F. Santos e Pedro Macedo, 2015). Destaco: “E para quê tudo isso? Porque organizou tão aplicada e minuciosamente a vida literária? A consciência da proximidade da morte? Sim, claro. Porém, não estava a trabalhar para a posteridade. Não acreditava nisso, o que também o distinguia da maioria dos seus colegas poetas e escritores, que acreditavam no enganoso princípio de que ‘o homem morre e a literatura fica’. Ele dizia que ‘tudo tende para a indiferença e o esquecimento, que é essa a nossa condição. Não vale a pena fazer grandes planos para a eternidade, a eternidade está-se nas tintas para os nossos planos. A beleza e a grandeza de todas coisas é a sua efemeridade. […] Tudo tem o mesmo destino, tudo (crónicas, poemas, romances) acaba na mesma imensa campa rasa do esquecimento. […]’ (opus cit. pp. 445-6).

E no entanto, a prece poética que tem sido atendida é de MAP: “Fazei com que alguma coisa permaneça. / Um verso, um poema.” O efémero permanece no desejo poético…