Opinião
Letras | Afonso Lopes Vieira (2025) Poesia OU o tesouro acessível
Há muito que uma edição da Obra Poética de Afonso Lopes Vieira é esperada no nosso meio cultural, já que quase todos os livros se encontram esgotados
Por cortesia da editora E-Primatur, recebi, em novembro, o belíssimo volume de 715 páginas, antologia de Poesia de Afonso Lopes Vieira (ALV). A organização e fixação do texto é de José Manuel Quintas e Manuel Vieira da Cruz. As duzentas páginas finais apresentam um estudo magistral de José Carlos Seabra Pereira, intitulado “O Trovador de Portugal”, dividido em três partes coesas: “Trabalhos e dias de uma vida edificada com a beleza da arte”; “As fundações ideotemáticas e formais da obra poética”; “Legado de Afonso Lopes Vieira”. Consultei o site da editora, e o preço de capa do vol. é de 24,90, com a oferta (natalícia?) a 22,41 euros.
Há muito que uma edição da Obra Poética de Afonso Lopes Vieira é esperada no nosso meio cultural, já que quase todos os livros se encontram esgotados. A Imprensa Nacional (INCM) tem – vai para duas décadas – uma edição integral da obra poética completa, pronta a ser editada, com fixação de texto minha e prefácio. Louva-se o programa editorial meritório da INCM de devolver ao público português os textos canónicos da sua cultura literária; é mais difícil de perceber a lentidão de todo o processo… Ora, uma vez que praticamente só as obras para a infância de ALV têm continuado a ser impressas (e O Romance de Amadis, com indicação programática ministerial e presença no PNL; o excecional “Marques” (História dum Perseguido), com org. de Eduardo Cintra Torres e posfácio meu), atualmente a única obra de poesia que poderia ser encontrada à venda, com edição de Couto Viana, é o último livro de poesia de ALV, Onde a Terra se acaba e o Mar começa, em 1998, patrocinada pelo IPLB, mas que se encontra praticamente esgotada. A oportunidade deste volume não podia vir em melhor altura e em momento mais apropriado.
Com uma sugestiva capa marítima/marinha (que reproduz uma aguarela de Roque Gameiro e cuja identificação ficou esquecida na ficha técnica), Quintas e Cruz, os organizadores, explicam com rigor na “Nota editorial” quais os critérios que presidiram a esta antologia. Optaram por seguir a antologia pessoal que ALV organizou em vida – Os Versos de Afonso Lopes Vieira (1927) –, quando acreditou que o ciclo da criação poética se tinha fechado para si, correspondente à produção entre 1898 e 1924. Assim sendo, não incluíram nenhum dos poemas excluídos pelo próprio autor, nem recuperaram poemas entre a obra dispersa ou a inédita. Incluíram também as pouco conhecidas Éclogas de Agora (1935), crítica oposicionista ao Estado Novo e demais ditaduras autoritárias (havendo uma chave das alusões criptográficas lá presentes, que é dada em Apêndice, e já documentadas em Nobre, 2005, 2019), e o livro derradeiro Onde a Terra se acaba e o Mar começa (1940). A consulta do Índice geral mostra categorizados os vários subtítulos que localizam a proveniência dos poemas no seu hic et nunc original: Romanceiro I; O Pão e as Rosas; Monólogo do Vaqueiro; Romanceiro II – Ilhas de Bruma; Romanceiro III – País Lilás; Para os Piquenos Portugueses; Cenas Infantis; Ao Soldado Desconhecido; Cancioneiro I; Cancioneiro II; Cancioneiro III.
O estudo de Seabra Pereira é um ensaio fundamental para os investigadores de ALV. Repleto de conhecimentos histórico-filosóficos que atravessaram o tempo finissecular e se ramificaram, evoluindo, de diversas formas, num início de Novecentos à procura do seu lugar. Paladino da Tradição, ALV ultrapassou sempre todos os convencionalismos, procurando o melhor da identidade portuguesa. Nas palavras do mestre: “[…] Leal e insubmisso por carácter […], fiel e insurgente por propósito, refontalizador e inovador por projecto, Afonso Lopes Vieira descobre-se e constrói-se como figura artística de um tradicionalismo que quer e tenta evitar o academismo e outras rotinas convencionais. […]” (opus cit., p. 701). Com o seu brilhantismo, Seabra Pereira torna este volume – que se poderia considerar apenas de restituição de um ALV esquecido – numa peça fundamental para os investigadores do futuro. Lê-se com prazer e com proveito.
