Opinião

Ler, escrever e pensar

27 ago 2026 14:42

Numa altura em que vivemos “dentro” de ecrãs feitos à medida para nos dar respostas fáceis e incentivar o ódio, a literatura faz o oposto

Basta ligar a televisão, abrir um jornal ou olhar para o telemóvel para perceber que as notícias e as redes sociais não servem apenas para nos informar, mas para nos conduzir a pensar exatamente o que alguém quer que pensemos.

Entre as reportagens da guerra na Ucrânia, as imagens insuportáveis do massacre em Gaza e o circo político de Donald Trump a ameaçar o que resta da democracia americana, é fácil sentir uma mistura de cansaço e impotência.

E sob o disfarce de um falso conservadorismo, os novos populistas aceleram o retrocesso a que assistimos. E, no meio disto tudo, o que nos sobra afinal?

Sobra-nos a capacidade de ler, escrever e pensar. Pode parecer um luxo ou uma ingenuidade de professor, mas garanto-vos que não é. Atualmente, é uma questão de sobrevivência intelectual.

Este verão, aproveitei para ler O Tango de Satanás, de László Krasznahorkai, e Gente Pobre, de Fiódor Dostoievski.

São leituras exigentes que nos devolvem a profundidade e a dignidade do pensamento no meio do caos global.

Numa altura em que vivemos “dentro” de ecrãs feitos à medida para nos dar respostas fáceis e incentivar o ódio, a literatura faz o oposto.

Obriga-nos a tentar perceber e refletir sobre opiniões diferentes. Quem não lê fica muito mais vulnerável à primeira história bem contada que lhe aparecer à frente, seja um slogan populista ou uma teoria da conspiração.

JORNAL DE LEIRIANewsletter Primeira PáginaFique a par do essencialSubscrever

Mas mais complexo que ler é pensar e escrever. Pensar dá trabalho porque nos obriga a parar e a pôr em causa aquilo em que acreditamos.

Dá muito menos trabalho aceitar uma opinião feita do que ficar a refletir sobre um assunto difícil. E escrever consegue ser ainda mais difícil.

Na nossa cabeça, as ideias parecem todas muito claras, mas basta sentarmo-nos a tentar passá-las para o papel para percebermos que afinal o nosso raciocínio não é tão claro como pensávamos.

Escrever força-nos a medir cada palavra, a fazer opções e a assumir com clareza o que pensamos. É complexo porque nos expõe e não deixa margem para manobras.

Numa altura em que a inteligência artificial consegue “escrever” páginas de texto em segundos, fazer o esforço de pensar pela nossa cabeça é a única forma de mostrarmos que ainda estamos vivos e conscientes.

No dia a dia, estou convencido de que a nossa maior responsabilidade é não ceder à preguiça mental. Guardar tempo para ler, escrever com honestidade e pensar.

Não vamos parar as guerras de um dia para o outro. Mas é a única garantia que continuamos vivos e não aceitamos ser meros espetadores da nossa própria destruição.

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990