Opinião
Julian Cope – “Charlotte Anne”
Cope é agora um artista de culto, com tudo o que isso confere: devoção cega e admiração infinita por uma (enorme) minoria; um olhar desconfiado do resto do mundo e até dos que o veneravam nos primeiros anos da sua carreira em nome próprio
Os quase cinco minutos de duração de “Charlotte Anne”, tema integrado em My Nation Underground, álbum que o britânico Julian Cope lançou em 1988, não impediram que a canção tivesse uma considerável exposição radiofónica, mesmo em horário nobre, contrariando os três minutos normalmente reservados, à época, aos temas pop que rodavam em modo diurno entre o éter nacional mais exigente.
Provavelmente foi o mestre António Sérgio, o nosso John Peel português, quem o rodou em primeira mão no seu emblemático e altamente influente programa “Som da Frente”.
Na verdade, o tema (e sobretudo o álbum do qual faz parte) dividiu os fãs de Cope. Os mais puristas defendiam que o ex-The Teardrop Explodes se estava a vender ao mainstream. Já os mais liberais concediam-lhe o benefício da dúvida e permitiam a Cope trilhar o caminho do sucesso, desde que isso não hipotecasse a qualidade das canções que compunha, arranjava e cantava. A realidade e o futuro que o esperavam mostraram-nos, porém, um músico a caminho de um território estético cada vez mais hermético e alternativo, surpreendendo mesmo aqueles fãs que o “condenaram” pelas experiências quase comerciais que encetou. Até esses acabaram por desistir dele, incapazes de acompanhar o psicadelismo radical e obscuro que hoje o caracteriza.
Cope é agora um artista de culto, com tudo o que isso confere: devoção cega e admiração infinita por uma (enorme) minoria; um olhar desconfiado do resto do mundo e até dos que o veneravam nos primeiros anos da sua carreira em nome próprio.
“Charlotte Anne” está nos antípodas daquilo que ele grava atualmente. É uma canção com tudo o que uma boa canção deve ter: um refrão forte, uma toada que nos prende, arranjos simples e paradoxalmente sofisticados, narrativa, gancho e uma excelente interpretação. “Charlotte Anne” é uma canção pop, do tempo em que a pop era feita de fato e gravata e com sapatos impecavelmente engraxados. É uma canção intemporal e deliciosa.
Cope já não faz nada disto, mas o que faz, seja visceral, seja espiritual, continua a ser genial e genialmente circunscrito a um território onde só ele habita.