Opinião
Jaguar perfumado, tigre de papel
Largou a casa, o emprego e mudou até de país, só para garantir que nunca mais a encontrava. Deixou-lhe o ego em estado comatoso e as contas do mês para pagar depois
A última vez que a vi, descia descalça a Avenida da Liberdade. As sandálias penduradas pelo salto agulha no bolso de trás das calças, o cabelo volumoso amarrado ao alto num turbilhão de madeixas de muitos tons, o batom intenso a gargalhar na surpresa de me encontrar ali, na rua, tarde da noite, tão sozinha quanto ela. O meu aprumo sempre acolheu com inveja disfarçada todo o desalinho livre da sua existência em explosão. Devia ser possível interpor uma providência cautelar que a afastasse de si própria, até estarem reunidas as condições de segurança para que voltasse a encarnar. Não sendo, há muito que previa a implosão que aconteceu.
Perguntei-lhe pelo homem por quem tinha largado tudo, respondeu-me que também ele largara tudo por ela. Largou a casa, o emprego e mudou até de país, só para garantir que nunca mais a encontrava. Deixou-lhe o ego em estado comatoso e as contas do mês para pagar depois. Fê-la descobrir que a saudade não nos enlouquece, que pena. Não te fies, disse-me, morrer por amor é um embuste.
Acrescentou que assim seguia a vida, a tal soma dos dias que havemos de cumprir com dores, copos, corpos, anseios, arte, causas, frustração, raiva e amor. Sem hossana nas alturas, que andar sobre o arame não merece regozijo e a rede nunca está lá. Alguém com um hipotálamo funcional será feliz? Não.
Lembrei-me da leveza fervilhante que sempre lhe conheci, do riso limpo e do arrojo que soava a promessa de vertigem, de golfada de ar fresco em pulmão aberto. Exalava um prenúncio de ebulição lenta, num fogo que não apaga. Entregava corpo e alma na mesma remessa, tudo nela passava a ter destino no outro. Quando me assegurou, de olhos incandescentes e riso garrido, que era aquele o amor para sempre, eu pus todas as minhas preces nos dias por nascer e desejei que, um após outro, nascessem no compromisso de cumprir o sempre dela. Não nasceram.
Perguntei-lhe se conseguia ainda maravilhar-se com uma certa luz, com aquela onda, com um chilreio na árvore, com pegadas de gaivota, com um solo de guitarra, com uma montanha alta, com um fado vadio, com um quadro improvável, com uma alvorada insana, com um samba descalço, com o céu de estrelas na planície quente, com nascentes, com desovas, com sonhos cumpridos ou com um novo amor a apertar a glote até ao transe.
(abraçou-me a chorar, num repente que me fez perder o equilíbrio)
Recompôs-se, calçou as sandálias e encarou-me de chofre, altiva no borrão de batom que lhe tornava a boca disforme. Sem me responder, sem se despedir, entrou no hotel que nos apareceu no passeio e atravessou o lobby em passo firme. Vi que foi direita ao elevador, sabia o andar, levava o número do quarto na ponta da língua, na ponta dos dedos, no bico das mamas, e eu nunca mais a vi.
Assim era Ana Lee. Um jaguar de pelagem encharcada em perfume barato, um tigre frágil como papel antigo que se desfaz no vapor.