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Investigadores voltam ao Lapedo à procura do Homem moderno

29 jul 2018 00:00

Equipa internacional acredita que o Abrigo do Lagar Velho, onde foi descoberto o Menino do Lapedo, pode ser um sítio chave para compreender a transição entre o dito Homem de Neandertal e os primeiros humanos modernos.

"Este é um sítio que ainda tem muito para contar. Há muita história escondida, sobretudo nesta superfície de ocupação datada de há 27 mil anos que ainda não foi toda escavada. Consideramos que este pode ser um sítio chave para compreender a transição ou [detectar] as primeiras comunidades anatomicamente modernas do homem.”

As declarações são de Ana Cristina Araújo, arqueóloga do Laboratório de Arqueociências da Direcção Geral do Património Cultural (DGPC), que está já no terreno a preparar o início das escavações.

Segundo esta investigadora, neste local foi identificada a data de há 29 mil anos, pelo que os especialistas acreditam que poderá verificar-se a "transição entre o dito homem de Neandertal e os primeiros Humanos modernos".

Se esta transição for encontrada ajudará a "compreender como se processou essa mudança entre dois ‘homos' distintos no território nacional", reforça Ana Cristina Araújo.

Vinte anos depois da descoberta do Menino do Lapedo na zona do Abrigo do Lagar Velho, freguesia de Santa Eufémia, no concelho de Leiria, uma equipa internacional de investigadores de diferentes áreas vai iniciar uma nova campanha arqueológica.

Os trabalhos de campo, que se iniciam na próxima semana e que irão decorrer até dia 22 de Agosto, envolvem "dez a 12" investigadores portugueses e espanhóis, num projecto do qual faz parte o arqueólogo João Zilhão, que liderou as escavações há precisamente duas décadas.

Nos trabalhos de campo anteriores "foram datados muitos materiais que foram encontrados nesta reentrância [onde foi localizado o Menino do Lapedo]", recorda Ana Maria Costa, geoarqueóloga do Laboratório de Arqueociências da DGPC, ao referir que as informações actuais sobre o local especificam que "ficaram preservados neste pequeno abrigo restos da ocupação entre os 26 mil e os 24 mil anos".

Ana Cristina Araújo acrescenta: “temos o rio do lado esquerdo e o abrigo do lado direito. Claro que isto já sofreu alterações muito grandes ao longo dos tempos, mas este vale ainda guarda muito da sua originalidade”.

E é no solo, junto ao abrigo onde foi encontrado o Menino do Lapedo, que vai começar a ser retirada a areia e se vão iniciar as escavações, “num processo muito minucioso”.

“Esta é uma superfície que foi ocupada há 27 mil anos e o objectivo da escavação deste ano é tentar compreender esta superfície, se ela tem continuidade e até onde vai”, reforça Ana Maria Costa.

Nos trabalhos anteriores, apesar de só se terem feito escavações à superfície, “foram descobertas duas lareiras, muito bem preservadas e que datam de há 27 mil anos”, constatam, exibindo in loco os resíduos de carvão, assim como ossos e pedras queimadas por acção do fogo.

"Temos a fauna, constando-se muitos dentes de cavalo e de veado. Não sabemos muito bem como seria a superfície na altura, mas temos peças da fauna que estão em conexão. Há dentes que pertencem à mesma maxila e que estão uns ao lado dos outros. Portanto, nunca poderiam ter sido transportados", revela Ana Maria Costa.

Segundo Ana Cristina Araújo, a ocupação terá sido “do tipo quase residencial” e “tinha de ser muito próxima do abrigo”.

“Temos aqui quase dez mil anos de história [ocupação de há 24 mil, 29 mil e 34 mil anos]. Não sabemos o que o tempo levou durante todo este período. Podemos ver a pala do abrigo e imaginar que este era um sítio protector e que as comunidades humanas vinham regularmente para aqui. Quer João Zilhão quer Francisco Almeida consideram que que isto deveria ser, por altura dos 27 mil anos, uma zona de tratamento de carcaças de animais abatidos nas proximidades”, explica a arqueóloga.

Ana Cristina Araújo recorda que foi João Zilhão que iniciou as escavações, trabalhos que foram prosseguidos por Francisco Almeida, que estará em Leiria, vindo da Austrália.

“Temos esta superfície de há 27 mil anos e a zona do famoso enterramento infantil do Menino do Lapedo, que data de 29 mil anos. Há uma diferença entre 27 mil e 29 mil anos e vê-se que a parede calcária do abrigo mete para dentro. É precisamente nesta concavidade que foi depositada a criança de quatro anos.”

Os trabalhos de campo vão decorrer com recurso a todas as metodologias. “Os sedimentos vão ser lavados aqui. Temos um laboratório de campo, onde ao final da tarde vamos trabalhar os materiais que foram exumados, etiquetar e fotografar.”

Serão ainda realizados desenhos, com recurso a uma coordenação tridimensional de todos os objectos para se percebe

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