Opinião

Foi-se a 'Preguiça'

12 jan 2017 00:00
joao-nazario-director-do-jornal-de-leiria
João Nazário, director do Jornal de Leiria

A “morte” da Preguiça Magazine é, sem dúvida, uma má notícia para Leiria, principalmente se atendermos a que a cidade está a preparar uma candidatura a Capital Europeia da Cultura.

Ao longo de quatro anos, o projecto liderado por Ricardo Graça, Cláudio Garcia, Paula Lagoa e Pedro Miguel foi um forte aliado da cultura leiriense e das várias assoaciações e pessoas que trabalham na área, ajudando na sua divulgação e promoção.

Semanalmente, a Preguiça aparecia a relembrar o que esta região tem em termos de oferta cultural, ao mesmo tempo que contribuía para formar opinião e para melhor conhecermos o nosso património e a história de personalidades menos ou mais anónimas.

Sempre de uma forma criativa, “desempoeirada” e liberta de tabus. A Preguiça entrou na vida da cidade, principalmente no círculo ligado a questões culturais e da vida urbana. Era lida e comentada. As pessoas gostavam e falavam dela.

Assim, porque terá “morrido” o projecto? Que razões poderão ter levado os seus fundadores a tomar esta decisão? São perguntas com que muitos se interrogarão e para as quais cada um avançará com uma possibilidade.

Mas se o pensamento não se ficar pela espuma, alguns chegarão a outras questões que, provavelmente, nunca se lhes teriam colocado antes: como se financiava a Preguiça Magazine?

Que compensação teriam os “preguiçosos” pelos seu trabalho, que não era pouco? De que forma cada um de nós contribuiu para ajudar a que o projecto se mantivesse? São questões em que raramente se pensa quando se fala nas associações que vão dinamizando de forma “crescente” a cultura desta e de outras cidades.

No caso da Preguiça, há uma agravante de ter um compromisso semanal, não podendo, como outras associações, gerir a sua actividade consoante o tempo e a disponibilidade. No fundo, o problema da Preguiça é o problema da maioria das associações ligadas à cultura: Todos gostam muito, mas poucos estão dispostos a pagar por ela.

E isso é tanto verdade para as pessoas singulares como para as empresas e outras instituições. Geralmente usam muito a palavra “cultura” nos discursos mas raramente assumem um compromisso de responsabilidade social a financiá-la ou a promovê-la.

Morreu agora a Preguiça como num futuro próximo desaparecerão outras associações, bastando os seus motores cansarem-se ou deixarem de ter disponibilidade. É assim a nossa cultura, ainda muito dependente da boa vontade e voluntarismo de alguns, poucos, de estruturas amadoras e de meios muito escassos.

Ou seja, a realidade está ainda a léguas do discurso sobre estas matérias, continuando Portugal muito distante do que se faz nos países que já perceberam o enorme potencial da cultura, quer para a elevação da sociedade quer também para a economia.

*Director do JORNAL DE LEIRIA