Opinião

EsCravos de Abril

24 abr 2020 19:52

"O seu passaporte a miséria, o seu destino a guerra."

 

José traz consigo uma sacola recheada de memórias.

Na remota aldeia onde nasceu não havia nada.

Não havia escola nem electricidade para iluminar tamanha indigência. Não havia estradas nem esgotos para vazar tanto desespero. Não havia médico nem água para sanear tão grande moléstia. Meia dúzia de casebres esmoreciam no monte, investindo a nudez da taipa e do colmo contra o rigor dos elementos, vazando as imundícies por regos rasgados na poeira da terra batida. Bandos de moscas sujas pairavam no ar, zumbindo por entre odores pútridos e vapores azedos.

Na imensidão dos campos estéreis crescia o vazio das horas, eternamente nutrindo a infindável pobreza dos dias.

O pai, derreado pela servidão, desapareceu nas entranhas de uma taberna, por entre meios quartilhos de vinho e sinistras risadas.

A mãe, vergada pela fome dos filhos, desapareceu na lascívia de um merceeiro, a troco de meia oitava de arroz e hipócritas congratulações.

Caminhou descalço pela geada da sua infância, gretando os pés nos tortuosos caminhos do trabalho infantil. Alimentou-se da escassez e da fome. Semeou calos, cáries e contusões nas leivas de terras alheias, colhendo dos pomares dos patrões os trapos e o analfabetismo com que cobria o corpo e a alma.

Foto : Ricardo Graça

 

Ao primeiro buço, a primeira viagem. O seu passaporte a miséria, o seu destino a guerra.

Para lá do mar havia uma terra bravia, feita de secura e de horror, onde o chão se manchava das carnes arrancadas aos corpos pelas balas que cruzavam os céus. Nas aldeias, remotas como a sua, ardiam os casebres, por entre o choro e as lamúrias das mulheres e das crianças. Pela floresta rugiam hediondas explosões de fogo, projetando pelos ares os gritos e os membros amputados dos homens.

Rastejou pelas trincheiras do mato, do medo e da morte. Atravessou rios de águas tingidas pelo sangue e pelo assombro do susto. Chorou sozinho na escuridão das noites lamacentas, agarrado aos corpos caídos dos companheiros.

Matou e, ao matar, morreu.

Na sacola de José não há mais do que memórias.

Nada mais lá cabe.

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