Opinião

“Do outro lado do espelho”

8 fev 2018 00:00
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Patrícia António, psicóloga

O nosso primeiro espelho é o rosto da mãe e/ou figura cuidadora, o seu olhar, o seu sorriso, as suas expressões faciais. Por isso, a mãe ou outro “ser de carne e osso” que desempenhe a função materna tem uma grande responsabilidade.

"Recordo-me de em pequena a minha mãe chamar-me vaidosa e petulante porque passava horas em frente ao espelho”. Certamente à procura de um espelho reflector não deformador de si e nem das suas qualidades, que a amasse e respeitasse como uma menina única e exclusiva, merecedora de existir.

Hoje Maria (nome fictício) é uma mulher adulta, pesa próximo de 100 quilos e não consegue ver-se ao espelho, nem olhar o seu corpo que tende constantemente a deformar. Procura-me porque tem consciência que algo não vai bem consigo, nem com o seu comportamento alimentar.

Sente uma profunda tristeza, muita desconfiança e ansiedade quando olha para o mundo. Tem dificuldades nos relacionamentos sociais, profissionais e também na vida íntima e afectiva. Vive uma auto-depreciação constante e sente muita vergonha, que agora quer procurar entender.

O desenvolvimento humano não é um processo apenas biologicamente determinado e passível de ser expresso só em quilogramas, centímetros ou percentis. Somos seres de cultura e activos na procura da interacção com o outro desde bebés e isso conta, conta muito.

Esta recordação da Maria levou-me ao pensamento de Donald Winnicott, pediatra e psicanalista inglês de quem eu gosto muito, quando diz que o bebé ao olhar-se no espelho do rosto materno vê-se a si próprio: “quando olho sou visto, logo existo... posso agora permitir-me olhar e ver”.

Na sua perspectiva, o nosso primeiro espelho é o rosto da mãe e/ou figura cuidadora, o seu olhar, o seu sorriso, as suas expressões faciais. Por isso, a mãe ou outro “ser de carne e osso” que desempenhe a função materna tem uma grande responsabilidade.

Uma vez sendo o espelho do seu bebé, ela tanto pode reflectir o que ele realmente é, como o que ela é ou imagina ser. As suas projecções podem distorcer a sua relação com o bebé, criando disrupções e comprometendo as suas experiências relacionais precoces possíveis, porque a visão que esta tem dos potenciais do seu filho tornam-se parte importante das representações que ele vai ter de si próprio.

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