Opinião

Deu-lhe um beijo sem querer e ela mudou-se para Cantanhede

24 ago 2016 00:00
carlos-martins
Carlos Martins

Vive na tortura da privação do sono por causa das vozes e das noites que passam sozinhas no intervalo do álcool.

No coito, pousio, onde espera paralelamente ao mundo num tempo onde tudo o que acontece não é nele. Nas noites que, sem alprazolan, são só perguntas muito evidentes que se desmotivam pela distracção de vir a ser de dia outra vez, com a esperança viciada de que amanhã possa ser uma vez diferente.

Lembra-se de muito pouco até aos 6 anos. Lembra-se que estava sempre a deixar cair lágrimas, o que, agora de longe, lhe apetece ver como uma resignação inútil à inevitabilidade reencarnatória sem opção de suicídio, lembra- -se que se cortou a descascar uma laranja na cozinha da casa na avenida principal e sabe que fugiu duas vezes de casa mas não se lembra porquê.

Depois conheceu a Maria João toda cheia de olhos azuis, já tinha 8 anos, ele e ela. Deu-lhe um beijo sem querer e ela mudouse para Cantanhede. Mas foi aí que a vida começou a ser. Com hormonas e Disney de formigueiro.

A seguir apaixonou-se pela irmã mais velha da namorada, já tinha 9, não era a Maria João mas era o mesmo formigueiro, a mesma falta de ar, o mesmo Paião, que nem é longe de Cantanhede.

*Músico

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