Opinião
Deixa-me estar calado | O que um artista da Maceira escondia debaixo da cama
Foi outro leiriense, nascido no Vidigal, quem reconheceu no homem dos “bonecos” um talento que merecia ser descoberto
Talvez muitos não conheçam a obra de José Pedro, artista natural de A-dos-Pretos, Maceira. Eu próprio descobri recentemente, no Museu-Casa José Pedro, em Sacavém, uma obra que foi uma agradável surpresa e que me fez pensar como, por vezes, conhecemos tão pouco daqueles que nasceram perto de nós.
José Pedro nasceu em 1907 e, aos sete anos, já manifestava um talento invulgar para as artes. Construiu então uma réplica da igreja da sua terra, suficientemente grande para permitir a entrada de oito pessoas. A povoação recebeu a obra com entusiasmo e admiração. Em casa, porém, a reacção foi bem diferente. A mãe, Maria Luísa da Silva Pedro, destruiu-a e deixou-lhe uma frase que haveria de acompanhá-lo pela vida:
“A arte é para perdulários”.
José Pedro parece ter passado o resto da vida a provar exactamente o contrário.
Aos dezasseis anos foi trabalhar para a Fábrica de Cimentos de Maceira-Liz. Nas horas livres desenhava e moldava. O cimento, que para uns servia para levantar paredes, servia-lhe também para construir mundos.
Em 1928 veio para Lisboa cumprir o serviço militar, no Regimento de Sapadores dos Caminhos-de-Ferro, em Campo de Ourique. Continuou a desenhar e a moldar figuras em barro, muitas vezes às escondidas dos superiores. Os companheiros depressa lhe deram uma alcunha que ficaria para sempre: “O Faz-Bonecos”.
Um dos episódios mais curiosos dessa época conta que José Pedro escondia debaixo da cama um pequeno quartel de barro, com soldados e todos os pormenores. Quando os superiores o descobriram, o episódio teve um final pouco militar: em vez de castigo, acabou dispensado de alguns serviços para continuar a fazer os seus “bonecos”.
O comandante Raul Esteves reparou no talento daquele soldado e desafiou-o a desenhar e moldar um convento. Se fosse capaz de o reproduzir, prometeu encaminhá-lo para uma Escola de Belas-Artes.
José Pedro conseguiu.
Foi então que surgiu uma figura decisiva no seu percurso: Adriano de Sousa Lopes, pintor nascido no Vidigal, em Pousos. Leiriense e figura importante da cultura portuguesa do seu tempo, Sousa Lopes reconheceu naquele homem sem formação artística convencional um talento que merecia ser acompanhado e ajudou-o a entrar na Escola de Belas-Artes.
José Pedro frequentou o Curso Especial de Escultura em 1933, mas permaneceu apenas cerca de seis meses. A doença e as dificuldades económicas obrigaram-no a desistir. A escola terminou; a vontade de criar, não.
Em 1934 entrou na Fábrica de Loiça de Sacavém como primeiro modelador. Ali encontrou um universo onde o trabalho industrial e a criação artística conviviam. Mas a sua verdadeira escola tinha começado muito antes, em Maceira, entre o trabalho, a memória popular, a religião e aquilo que observava à sua volta.
Uma das obras que melhor revela essa ligação é Procissão da festa do Sagrado Coração de Jesus e de Nossa Senhora da Luz de Maceira, realizada em barro policromado e madeira. É a sua terra transformada em memória, em pequena escala.
O Museu-Casa José Pedro, em Sacavém, foi para mim uma agradável surpresa. Ali percebe-se que estamos perante um artista singular, difícil de encaixar em gavetas, cuja obra nasceu longe dos circuitos habituais da arte e que merece ser mais conhecida.
Por isso, deixo um desafio ao Museu de Leiria: organizar uma exposição dedicada a José Pedro. Não apenas ao “Faz-Bonecos”, mas ao artista da Maceira que construiu uma obra entre o mundo operário, a cultura popular, a religião e a arte portuguesa do século XX.
Talvez seja tempo de trazer José Pedro de volta a casa.