Opinião

Deixa-me estar calado | Nem tudo foi inventado pelas freiras

14 ago 2026 08:48

Na Casa Brogueira, na Batalha, há a famosa Sandes Maluca, que, quando se olha para a composição, parece uma discussão entre a despensa e a imaginação. E quem é da região há-de lembrar-se da Gasosa da Batalha, que se bebia bem fresquinha ou servia para traçar os copos de vinho, e dos sumos SuperFresco, que também fizeram parte das nossas mesas e da nossa memória

Hoje só vou falar de comes e bebes.

Acreditem que a gastronomia desempenha um papel muito importante na economia de uma região, na dinâmica do turismo e nos nossos estômagos. Com fome e sede, a inspiração também não é tanta para escrever.

Sempre gostei de desenvolver projectos que me aproximassem desta área e, quando falava com gente da restauração que estava a começar um espaço novo, dizia-lhes quase sempre a mesma coisa: tenham uma especialidade que seja só vossa. Um prato, uma bebida, uma combinação improvável. Algo que faça alguém dizer a outro:

— Tens de ir ali. Eles têm uma especialidade que só eles fazem.

É assim que começam algumas das melhores histórias.

Lembro-me do saudoso Pirata, nos Restauradores, em Lisboa, com o seu Pirata — vinho generoso com gás — e o Perna de Pau, que juntava vinho generoso, gás e ginjinha. O nome e a exclusividade já eram meio caminho andado.

Por falar em nomes, no Bairro Alto, no Bar Arroz Doce, existia uma famosa bebida chamada Pontapé na Cona. Não me perguntem pela receita. O nome, esse, era impossível esquecer.

Lembro-me também de uma casa em Figueiró dos Vinhos, nem sei sequer se ainda existe, que fazia uma Sandes de Molho de Leitão, com as sobras do molho e uns pedaços do próprio bicho. Era mais barata, era deliciosa e ainda levava um super-picante com um nome maravilhoso: Levanta Mantas.

Na Casa Brogueira, na Batalha, há a famosa Sandes Maluca, que, quando se olha para a composição, parece uma discussão entre a despensa e a imaginação: pão, presunto e atum. E, no entanto, comida ali, sabe especialmente bem. Talvez porque algumas receitas também precisem de morada.

E nem tudo tem de ser uma receita secular, descoberta por uma freira entre duas orações.

A francesinha nasceu nos anos 50, quando um emigrante regressado de França pegou no croque-monsieur e lhe deu uma volta à portuguesa. O bacalhau à Zé do Pipo é ainda mais divertido: nasceu de um concurso gastronómico, nos anos 60. José Valentim apresentou a sua receita e ganhou. Uma receita que nasceu para concorrer acabou a fazer concorrência à própria História.

Na região de Leiria também temos quem não queira ficar parado.

O meu amigo Bruno Monteiro, proprietário do Burro Velho, na Batalha, é outro desses irrequietos. Inventou o Licor de Fátima e tive o privilégio de o acompanhar no processo da patente. Porque também se fazem produtos novos que até um padre apreciará.

E quem é da região há-de lembrar-se da Gasosa da Batalha, que se bebia bem fresquinha ou servia para traçar os copos de vinho, e dos sumos SuperFresco, que também fizeram parte das nossas mesas e da nossa memória.

Os Pastéis de Mós, apesar de muito recentes, já são um símbolo de Porto de Mós. E há as Rajadas do Liz, que fizeram algo que acho particularmente interessante: pegaram na famosa Brisa do Liz e desconstruíram-na. Retiraram-lhe a amêndoa, juntaram-lhe dois outros frutos secos e acrescentaram uns pozinhos de pirlimpimpim, que são o segredo e a alma da receita.

Ilustração de Bruno Gaspar

Pode-se gostar mais ou menos. Pode-se até achar graça, ou não, ao nome.

Mas primeiro há que provar.

É isto que admiro em quem arrisca. Quem abre um restaurante e inventa um prato. Quem faz uma bebida. Quem cria um doce. Quem olha para uma receita conhecida e pensa: e se fizéssemos isto de outra maneira?

Porque todas as tradições tiveram, um dia, a inconveniência de serem novidades.

Estou a escrever esta crónica na esplanada da cervejaria Xarlie, com vista para o Castelo de Leiria, a beber uma Xarlie. É a cerveja desta casa, uma marca criada aqui, nesta região.

E é por isso que levanto o copo.

Aos que inventam. Aos que arriscam. Aos que nos fazem dizer:

— Tens de ir ali provar uma especialidade que só eles têm.

Primeiro provamos. Depois criticamos.

A tradição pode esperar.