Opinião
Deixa-me estar calado | Afinal, o que tem Bulhão Pato a ver com as Cortes? Ou Cortes, uma terra de poetas
Porque não reunir a melhor poesia que a freguesia de Cortes já viu ser escrita? Recuperar livros, poemas, manuscritos e memórias, sem esquecer ninguém. Construir uma antologia que reúna os autores mais conhecidos e tantos outros que ainda esperam ser descobertos
Se Bulhão Pato soubesse que, século e meio depois, o seu nome continuaria a ser pronunciado tantas vezes à mesa, talvez ficasse satisfeito. Poucos escritores conseguiram semelhante proeza: entrar na história da literatura e, ao mesmo tempo, na carta dos restaurantes. As amêijoas à Bulhão Pato não foram inventadas por ele, nem são uma especialidade das Cortes. O prato foi baptizado em sua homenagem. Mas o escritor tem, isso sim, uma ligação literária a esta terra.
Amigo de António Xavier Rodrigues Cordeiro, visitou a sua casa nas Cortes e deixou-nos, em Digressões e Novellas, publicado em 1864, páginas preciosas sobre a paisagem, os costumes e a vida das suas gentes. Escreveu sobre desafios poéticos, os cantares de amor e as tradições populares. Percebemos que, por aqui, a poesia não vivia apenas nos livros e nos salões literários. Também fazia parte da vida quotidiana.
Mas Bulhão Pato é apenas uma porta de entrada numa história com outros protagonistas . António Xavier Rodrigues Cordeiro, José Lopes Vieira, José Marques da Cruz e Afonso Lopes Vieira são alguns dos nomes incontornáveis desta relação entre as Cortes e a literatura. E digo alguns porque há muitos outros autores cujos versos e histórias merecem ser recuperados.
No caso de Afonso Lopes Vieira, há motivos para satisfação. O empresário Nelson Simões tomou a iniciativa de criar um museu na casa das Cortes que pertenceu a António Xavier Rodrigues Cordeiro e que Afonso Lopes Vieira herdou e onde viveu em diferentes períodos da sua vida. Uma iniciativa que muito me honra, também por ali estarem alguns retratos do escritor da minha autoria.
Quero também recordar a poesia de Rui Sá Pessoa, que dirigiu o Jornal das Cortes, e do seu neto Luís Sá Pessoa, meu amigo, que nos deixou tão cedo. A poesia de Rui merece ser lembrada e a de Luís, poderia finalmente ser trazida a público. Seria bonito reunir os poemas de ambos, dar-lhes o lugar que merecem e permitir que estas duas vozes, de gerações diferentes, cheguem a novos leitores.
Fica um desafio: porque não reunir a melhor poesia que esta freguesia já viu ser escrita? Recuperar livros, poemas, manuscritos e memórias, sem esquecer ninguém. Construir uma antologia que reúna os autores mais conhecidos e tantos outros que ainda esperam ser descobertos.
As amêijoas à Bulhão Pato já têm leitores fiéis à mesa. Os poetas das Cortes merecem conquistar os seus nas páginas dos livros. E, desta vez, não precisamos de alho, coentros ou limão. Basta dar-lhes a ler.