Opinião

CULTURA, UNIVER(CIDADE) E (DES)ENVOLVIMENTO – XXX

28 mar 2017 00:00
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Ricardo Vieira, professor decano do Politécnico de Leiria

O sentido de justiça de uma Secretária de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior

O Jornal de Letras (JL) n.º 1211, de 1 a 14 de março de 2017, traz, na secção da educação, uma entrevista à Secretária de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Maria Fernanda Rollo onde a jornalista Carolina Freitas afirma que se fala dos desafios e novidades para o ensino superior.

Ora, eu não vejo novidades nenhumas como procuro demonstrar de seguida. Desde logo, o título “apostar na ciência e no ensino superior para uma sociedade mais justa” é bem desafiante. Mas o conteúdo entra em contradição com o intitulado.

A entrevista não se centra no ensino superior, mas, antes, sim, na defesa do dualismo no ensino superior, reivindicando o aprofundar da distinção entre ensino politécnico e universitário, como duas avenidas paralelas que nunca se tocassem.

Aliás, Fernanda Rollo fala em atrair mais estudantes para o ensino politécnico e para o ensino universitário, não para o ensino superior. Depois fala da necessidade de alargamento e renovação do corpo docente, bem como do combate à precarização, ideário de que não vimos, ainda, sequer, uma linha concretizada.

De entre algumas estatísticas que a Secretária de Estado refere, ressalta aos olhos a constatação de que 80% dos jovens que termina o ensino profissional não segue para o ensino superior. Ora aí reside, desde logo, o busílis da questão. Qual a imagem e projeto que o Ministério vende a estes alunos? Iniciar uma profissão depois de estudos de natureza curta ou ingressar no ensino superior? Alguém tem dúvidas? Não preciso explicar, pois não?

E quanto vão ganhar os “profissionalizados” no ensino profissional? O ordenado mínimo, uma vez que a lei não permite menos. E se fossem licenciados? E se fossem mestres? Bom, e se fossem doutores (esta tem sido uma ideia bastante discutida. Será que os empresários querem doutores a trabalhar consigo?)? Na “região de Leiria”, de que dizemos ser rica, ganhariam a mesma coisa, acrescido de mais uns cobres, por fora, para não pagar segurança social e outros impostos. Que sistema de incentivos a estudar é este? Assim vai a nossa “região”...

E que defesa de dualismo estudantil é este que depois quer levar os excluídos da escola para o ensino superior? E a que condições de acesso, Senhora Secretária de Estado, se refere quando fala em criar “condições de acesso mais justas”? Mais desigualdade no ingresso no ensino superior? É a isso que se refere? Não chega, já? Até tremo do que possa sair daí, Meu Deus.

Será que é por aí que seguirá o que designam de modernização dos politécnicos?
Depois, a Senhora Secretária de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior critica a “secundarização dos politécnicos”, que refere serem “instituições de grande qualidade”, mas indigna-se quanto à possibilidade de os politécnicos poderem conceder o grau de doutor (refere que “é um tipo de investigação própria das universidades” ou de se transformarem em Universidades - de Ciências Aplicadas, na continuidade da pergunta feita pela jornalista).

Na sua perspetiva de justiça, assume, contudo, que os Politécnicos se poderão associar a essa formação. Tanta bondade que até incomoda. Ora bolas para este conceito de justiça e equidade. Afirmar que mais vale um bom politécnico que uma má universidade pressupõe uma hierarquia em função da designação e assenta num preconceito não é aceitável hoje em dia e muito menos da parte de uma Secretária de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.

O Governo anterior maltratou os politécnicos... Este vem com paninhos quentes e raminhos de flores dizer que os politécnicos são muito importantes, (só precisam de ser modernizados...) mas, claro, não podem conceder doutoramento porque se trata de um título universitário…

Tudo farinha do mesmo saco. Enquanto Leiria não quiser ser (univer)cidade (e nada foi feito, ainda, de forma grupal e suprapartidariamente, para fazer esse arranque) a modernização dos politécnicos vai mais no sentido de se tornar em escola pós-secundária.

*Professor Decano do Instituto Politécnico de Leiria
Professor Coordenador Principal da ESECS-IPLeiria
Investigador do CICS.NOVA.IPLeiria

(O autor do texto escreve segundo as regras do "Acordo" Ortográfico de 1990)