Opinião

Construir algo Real

11 mai 2026 21:30

Este é o “terceiro strike” de aviso para a região mudar – de baixo valor acrescentado, para alto valor

O Estreito de Ormuz é nosso conhecido dos livros de história do liceu, mas raramente pensávamos nele neste contexto moderno, como este funil por onde uma grande fatia estrutural de toda a energia mundial navega.

Pior do que isso, por mais grave que o momento seja, os mercados financeiros não refletem a economia real. É um comentário doloroso para quem já hoje sofre com o brutal aumento dos combustíveis, mas a verdade é do ponto de vista da realidade da entrega de petróleo as coisas vão piorar. Apesar da perda de cerca de 550 milhões de barris de crude do Golfo — quase 2% da produção mundial do ano anterior — e da redução mensal de 7 milhões de toneladas de GNL, os preços futuros do Brent ainda não refletem plenamente a gravidade da situação.

A Ásia é a região mais vulnerável, pois recebia quatro quintos das exportações do Golfo. Os stocks comerciais estão a cair rapidamente, as reservas estratégicas da Coreia do Sul e do Japão estão a ser consumidas. Alguns países impuseram teletrabalho obrigatório e racionamento de combustível, enquanto setores como minas, pescas e indústria dos plásticos já estão a reduzir atividade.

A China poderia aliviar a pressão ao libertar reservas mas optou por suspender as exportações de refinados. Na Europa, os governos têm tentado proteger os consumidores através de subsídios e cortes fiscais, evitando por agora uma queda significativa da procura. Mas isso agrava o desequilíbrio do mercado, porque mantém o consumo elevado, enquanto os custos reais de aquisição de crude para as refinarias são muito superiores ao que os futuros do Brent sugerem.

Mesmo que Ormuz reabrisse imediatamente, demoraria meses até à produção, o transporte marítimo e a refinação regressarem à normalidade. No caso de Portugal, sobretudo nos transportes, a situação caminha para dramática, mas o preço da eletricidade, com abundância de renováveis, não disparou (e existe a boa nova da abertura da ilha ibérica à conexão da energia francesa).

No caso de Leiria, parece que vivivemos um verdadeiro comboio de tempestades económicas - crise automóvel, a tempestade Kristin e agora crise energética. Este é o “terceiro strike” de aviso para a região mudar – de baixo valor acrescentado, para alto valor, onde flutuações de matéria-prima e energia podem ser acomodadas, onde talento é mais importante que o preço do aço.

Num mundo em que IA impera e vai destruir parte da indústria da software, o dinheiro dos investidores vai fluir para quem constrói coisas – e Leiria constrói coisas reais. Está na hora de assumir essa liderança e movermo-nos na cadeia de valor, para áreas como engenharia avançada, defesa, robótica e combinar de forma mais intensiva software e hardware (um drone é o perfeito exemplo desta combinação). Vamos construir algo real!