Opinião

Como é possível?

28 out 2023 10:21

Como europeia, sinto-me vexada, impotente - sentimentos que pouco importam ou ajudam a resolver seja o que for

Já aqui falei dos sentimentos que tinha nas aulas de História, quando dávamos aqueles momentos históricos que, à distância, parecem sempre tão óbvios, tão limpos. A história do Holocausto foi um desses momentos em que se me encheu o peito e tive de deitar cá para fora um enorme COMO FOI POSSÍVEL?

As aulas do meu querido Pedro Biscaia eram maravilhosas, porque eram sempre iguais - os tópicos no quadro, brevemente explicados enquanto copiávamos, seguidos da análise de textos, lidos por nós - mas cada uma era uma nova descoberta, em que se desenrolava, então, um possível porquê das coisas.

Não consigo parar de olhar para os dias que hoje vivemos e pensar que este ano vai encher o peito de outro alguém de um confuso “como foi possível”? Quais serão então os recursos que ajudarão a entender? Que documentos tornarão mais vívida a memória colectiva das gerações que terão dificuldade em entender como pudemos ser coniventes com o Genocídio do povo Palestiniano?

A mim, neste momento, ocorrem-me 3 coisas marcantes: o terror absoluto das crianças brutalmente bombardeadas nas suas casas; a resistência de todo um Sul Global à implacável propaganda Ocidental que não sai da sua bolha de negação e cumplicidade com crimes contra a Humanidade; e a agonizante entre-vista de Piers Morgan ao comediante egípcio Bassem Youssef, que põe a nu de uma forma desconcertante toda a hipocrisia do momento - um momento em que se está a querer vender a ideia de que começou no dia 7 de Outubro um conflito que na verdade tem mais de 75 anos de terror de tantos lados.

Como é possível? Como europeia, sinto-me vexada, impotente - sentimentos que pouco importam ou ajudam a resolver seja o que for, é certo. Como hei-de eu contribuir para que pare toda esta possibilidade de Mal? Sobre como ser o anticorpo dentro do problema, ocorre-me a arte como redentora mas, acima de tudo, como esclarecedora e galva-nizadora para a resistência que é necessária.

Ocorre-me o filme Jojo Rabit, tão eloquente a mostrar-nos que talvez o inimigo seja bem mais parecido connosco, afinal (por tudo o que é sagrado, aprendamos alguma coisa com a História!); e ocorre-me um maravilhoso sketch humorístico do Mitchell and Webb Look, em que David Mitchell, a fazer de soldado nazi, resume tudo numa pergunta muito poderosa: are we the baddies?