Opinião
Cláudia Camponês: Setembro outra vez
No fundo, trata-se de não deixar a tecnologia ocupar o lugar das pessoas. Ainda que útil, não substitui a ajuda humana quando precisamos de ser ouvidos
O que dizer do regresso às aulas que ainda não tenha sido dito ou pensado? Material escolar, horários, atividades extracurriculares, transportes, … enfim, a viagem letiva, que muitos sabem de cor, arranca novamente. Para alguns, serão já 12 anos de uma rotina obrigatória. À primeira vista, parece simples.
Mas o que se repete não é propriamente igual. Há sempre a novidade e o obsoleto. E no tempo da Inteligência Artificial (IA), que se integra a um ritmo acelerado na vida dos jovens, tudo muda.
A IA traz oportunidades e desafios e, sem entrar na superinteligência, à semelhança de outras grandes transformações, não dá para fugir. A alternativa é acompanhar os jovens, para que dela façam uma utilização mais segura e equilibrada. Como? A Child Helpline International, organização que defende os direitos das crianças e apoia sistemas de proteção infantil, criou um conjunto de orientações para ajudar os adultos a ter conversas mais informadas sobre IA junto dos jovens.
Deixo-vos o que me pareceu mais relevante: mais do que proibir, importa acompanhar. Fazer perguntas e mostrar interesse genuíno. Procurar saber como os jovens utilizam a IA, que dúvidas lhe colocam ou se a ela recorrem em momentos difíceis, sem julgamentos.
Utilizar estas ferramentas em conjunto pode também ajudar a compreender o seu impacto e promover uma utilização mais responsável. E é importante recordar que, por muito empática que pareça, a IA não é uma pessoa: reproduz padrões de linguagem e comportamentos humanos, podendo fornecer respostas pouco fiáveis. Se surgirem sinais de dependência ou isolamento, importa estar atento.
No fundo, trata-se de não deixar a tecnologia ocupar o lugar das pessoas. Ainda que útil, não substitui a ajuda humana quando precisamos de ser ouvidos, confortados ou ajudados. E se a IA se tornar o confidente preferido, importa questionar a existência de necessidades insatisfeitas nas relações atuais. O maior desafio desta nova realidade não é ensinar os jovens a falar com a IA, mas garantir que continuem a saber quando precisam de falar com alguém de verdade.