Opinião

Cinema | Sirât: a travessia da vida

3 jul 2026 08:01

É uma imagem poderosa que ecoa ao longo de todo o filme: cada obstáculo, cada perda e cada decisão transformam este percurso numa travessia espiritual, onde a resistência humana é constantemente posta à prova

Sirât, de Oliver Laxe, é um daqueles filmes que surgem de tempos a tempos para nos recordar que o cinema ainda consegue surpreender. É uma obra refrescante, singular e profundamente sensorial, recusando fórmulas fáceis para nos levar numa viagem tão física quanto emocional.

A narrativa acompanha um pai na procura da filha desaparecida, atravessando paisagens áridas e hostis. No entanto, esta viagem acaba por ganhar uma dimensão metafórica.

O título remete para o Sirât, conceito da tradição islâmica que descreve a ponte estreita que todas as almas terão de atravessar no Dia do Juízo, suspensa sobre o inferno e conduzindo ao paraíso. É uma imagem poderosa que ecoa ao longo de todo o filme: cada obstáculo, cada perda e cada decisão transformam este percurso numa travessia espiritual, onde a resistência humana é constantemente posta à prova.

No final, apesar de toda a dor e destruição, a mensagem que permanece é simples, mas profundamente impactante: a vida continua. Tenho uma enorme admiração por filmes que conseguem explorar praticamente um único cenário, fazendo desse espaço um elemento narrativo tão importante como as próprias personagens. Sirât pertence a essa categoria, combinando aventura, tensão e contemplação.

Quem aprecia histórias de sobrevivência, jornadas intensas e cinema que privilegia a experiência acima da ação convencional encontrará aqui uma proposta fascinante. O trabalho sonoro merece um destaque especial. A banda sonora e o desenho de som são absolutamente extraordinários, criando uma imersão constante que pede para ser vivida com um bom sistema de som. Há momentos em que a energia faz lembrar um cruzamento improvável entre Survivor e Mad Max, sem nunca perder a identidade muito própria que Oliver Laxe imprime ao filme.

No final, Sirât revela-se um drama sólido, realizado com enorme confiança e sensibilidade. É um filme que desafia, surpreende e refresca, ideal para quem procura uma experiência cinematográfica diferente.