Opinião
Cinema | Him: imperfeito, mas hipnotizante
É impossível negar que o filme tem um potencial enorme, muito maior do que aquilo que a receção crítica inicial tem sugerido
Him (2025) é um daqueles filmes que dividem profundamente quem o vê – e compreende-se porquê. Há nele uma tensão constante entre ambição artística e execução irregular, criando uma experiência que tanto fascina como frustra. Ainda assim, é impossível negar que o filme tem um potencial enorme, muito maior do que aquilo que a receção crítica inicial tem sugerido.
A fotografia é, sem dúvida, o elemento mais forte. Cada plano parece composto com uma atenção quase pictórica, explorando luzes contrastantes, sombras densas e uma paleta cromática que reflete o estado emocional das personagens. Há momentos em que a imagem é tão poderosa que quase substitui o diálogo, transmitindo sensações que o argumento nem sempre consegue articular. É cinema visual no verdadeiro sentido da palavra – e é por isso que surpreende a quantidade de críticas negativas que o filme recebeu, muitas das quais ignoram este trabalho técnico notável.
Narrativamente, Him oscila. A história tenta aprofundar temas como identidade, isolamento e culpa, mas por vezes perde-se em simbolismos excessivos e ritmos desiguais. Há cenas brilhantes seguidas de outras que parecem prolongadas sem necessidade. Essa irregularidade pode afastar alguns espectadores, mas também revela um realizador à procura de voz, disposto a correr riscos estéticos e narrativos.
As interpretações são sólidas, mesmo quando o guião não ajuda. A personagem central é construída com nuances interessantes, mostrando fragilidade e egoísmo, desejo e medo – uma mistura humana e imperfeita que torna o filme mais rico.
No final, Him é um filme imperfeito, sim, mas cheio de intenção e potencial. É daqueles projetos que podem não agradar a todos, mas que merecem ser vistos com mente aberta. E, acima de tudo, merece bem mais reconhecimento do que a crítica lhe tem dado.