Opinião

Cinema | Good Luck Have Fun Don’t Die

11 set 2026 08:10

A visão de Verbinski sobre a tecnologia não é discreta. Surge como sintoma de uma humanidade que caminha para o cadafalso. Mas o filme evita transformar-se num sermão: prefere o ruído, o absurdo e o excesso de velocidade

Aquela parece ser uma noite habitual num restaurante da cadeia Norms, em Los Angeles. Enquanto os copos de café são reabastecidos pela funcionária, a maioria dos clientes está absorta a fazer doom scrolling nos seus smartphones, alheada das demais pessoas no interior do estabelecimento.

Um homem vestido de forma estranha e com um aspeto andrajoso irrompe pela porta da frente, afirmando vir do futuro com a missão de recrutar, naquele restaurante, a combinação certa de pessoas que permitirá impedir, nessa mesma noite, a criação de uma inteligência artificial terrífica que destruirá o mundo como o conhecemos. Este “homem do futuro” tem de salientar que traz explosivos presos ao corpo, com o detonador sempre acessível na mão e demonstrar que, à 118.ª vez que entra neste restaurante para tentar levar a cabo o seu objetivo, vai fazer tudo o que estiver ao seu alcance para ser bem-sucedido.

Gore Verbinski, realizador de filmes tão díspares como o aterrador The Ring ou a aventura de animação Rango, mas também de dois “episódios” dos Piratas das Caraíbas, entre outros filmes, regressa à realização após uma prolongada ausência, com esta comédia negra que alguns dirão ser de ficção científica mas que pode, com a mesma facilidade, ser caracterizada como satírica e dramática. Extravagante será talvez um adjetivo adequado.

A crítica não foi de todo consensual acerca de Good Luck Have Fun Don’t Die (2025) talvez porque – e adianto-me – há que convir que para o final, subsiste uma forte sensação de delírio e afastamento da linha narrativa original. De toda a forma desafio alguém a desistir de ver o filme após a sequência de abertura e dos primeiros cinco minutos de ação, em que Sam Rockwell (o tal “homem do futuro”) arrebata qualquer espectador com um monólogo e uma interpretação absolutamente inolvidáveis.

A visão de Verbinski sobre a tecnologia não é discreta. Redes sociais, dependência dos dispositivos eletrónicos e a promessa de uma inteligência artificial omnipresente surgem como sintomas de uma humanidade que caminha para o cadafalso enquanto vai, voluntariamente, cedendo atenção, autonomia e abdicando das relações interpessoais. Mas o filme evita transformar-se num sermão: prefere o ruído, o absurdo e o excesso de velocidade, com ultrapassagens pela direita, ao invés de apostar numa tese arrumadinha. Este caos em crescendo ao longo dos 134 minutos de filme é simultaneamente a sua limitação e a sua força.

Ao contrário de outros enredos apocalípticos aqui não se encontra (nem se procura) um génio solitário, um militar imbatível ou um adolescente predestinado a salvar o planeta. A salvação não depende necessariamente da tecnologia mais avançada mas da capacidade de pessoas comuns prestarem atenção umas às outras. É possível que o futuro não entre pela porta com um exército de robots, mas se revele num restaurante, vestido de forma estranha, a pedir ajuda. E talvez ninguém levante os olhos do telemóvel.