Opinião

Cinema | Aftersun, magoa

9 jan 2026 08:22

O filme está repleto de sinais e dores caladas. De traumas escondidos e de uma doença mental que grita, ao mesmo tempo que se oculta nas sombras

Vi o filme Aftersun (2022), de Charlotte Wells no final de 2025, como uma espécie de prenda para mim mesma. Decidi-me a retirar um tempo da agenda agitada do final de ano, para parar e ver um filme que necessita de cerca de duas horas de foco, sem interrupções (ou, pelo menos, é assim que vejo as coisas).

Quis respirar um bocadinho e acabei por ficar com a garganta apertada. É que, a ler a sinopse, não conseguimos prever os sentimentos que nos vão partir ao meio e fazer com que acabemos por ver os créditos a soluçar.

Nada é dito, directamente. Os diálogos são parcos e a história constrói-se através do silêncio. Basicamente, o resumo desta narrativa é a de uma rapariga, Sophie, que relembra as últimas férias passadas com o pai, Callum, num resort na Turquia, através de cassetes de vídeo gravadas naqueles dias. Mas, da Sophie adulta, pouco se vê. A nitidez está na menina de 11 anos, com as suas próprias dores de crescimento e da relação – quase inexistente – com o pai, que está separado da sua mãe.

O filme está repleto de sinais e dores caladas. De traumas escondidos e de uma doença mental que grita, ao mesmo tempo que se oculta nas sombras.

A direcção de arte de Güzin Erkaymaz está exímia. E, quando a ela, juntamos a direcção de fotografia de Gregory Oke, encontramos, artisticamente, imagens belíssimas que nos remetem, facilmente, para uns anos 90 já perdidos no tempo e no espaço.

Wells conta a sua história de uma forma muito peculiar: cheia de vieses no meio da acalmia e metáforas que nos fazem questionar o que é a verdade do filme e o que é a ilusão. Mas, apesar de tudo, conta uma história que também é um pedacinho da sua, uma vez que é baseada nas suas próprias memórias de férias de Verão com o seu pai.

Mas não vou abordar mais da história, porque não quero desvendar nada. Queria só que ficasse registado que este é um filme para ser visto, degustado, analisado e amado.

A película acabou por ser amplamente nomeada e premiada, apesar de ser a estreia de Wells nas longas-metragens e, sinceramente, não me choca. Porque mais que efeitos especiais ou as câmaras de última geração, o Cinema é a arte de contar histórias através das imagens. Mostrar no ecrã o que se sente no peito de cada um. E transmitir estas emoções é não é simples. É duro e é necessário talento e ginástica.

Por isso, se para este ano alguém tem uma resolução de ver mais filmes, que coloque este na lista. Bom ano!