Viver

Azona

18 mai 2016 00:00

Mesa de Cabeceira

Estou a olhar para uma obra de Ai Weiwei e sinto-me a caminho da Zona de Tarkovsky. Na verdade estou a olhar para uma fotografia de uma instalação urbana de Ai Weiwei e sinto que me chama para o seu interior. É um enorme cilindro, rasgado a meio, construído numas escadas entre dois grandes prédios de apartamentos.

À frente, um pequeno lago ladeado por um jardim simples, que é quase só um manto de relva. O lago, estrategicamente colocado em frente do cilindro, reflete-o e duplica-lhe o tamanho. Um trio de candeeiros minimais e elegantes dão um ar esotérico ao espaço. Sinto que o cilindro é um transportador.

E chama-me. A obra chama-se Concrete, foi criada em 2000, e está no Soho New Town, em Pequim. Uma estátua que pretende representar a nova China, que se constrói lado-a-lado com a tradicional, representando uma sociedade aspiracional, que se projecta em Nova Iorque, mas que não esquece que está paredes-meias com Tiananmen e a Cidade Proibida. O passado e o futuro.

O socialismo-capitalista ou qualquer outra coisa do género ainda sem definição, mas já real. A coisa existe. Mas o que eu vejo é o transportador. A Zona. Que traz e leva. Coisas. E a mim. Entro dentro do cilindro pelo rasgão. À escuridão inicial opõem-se, aos poucos, cores. Cores várias de luzes que matam o cinzento do concreto. É vermelho, azul, verde, amarelo.

Primeiro, uma cor de cada vez, marcando a sua presença, como um filtro, depois misturadas, rodando refletidas num globo de espelhos e projetadas na parede cinzenta à medida que se começa a ouvir os primeiros acordes de Daydreaming dos Radiohead e um grupo de gente contorce o corpo e dança, dança, dança até cair, abatido pelo cansaço, mas não como os cavalos, cansados de alegria e prazer e de repente, portas que se abrem e fecham, que se abrem para espaço-tempo diferentes, para corredores e salas e quartos e jardins e igrejas e campos de futebol e praias e montanhas, e mais gente que se cruza, que caminha, que se senta para festejar, conversar, comer, beber, fazer amor, gente que se olha e se compreende e se respeita e...

Estou no interior de Concrete. Está escuro. Olho através do rasgão e vejo o lago. Caminho na sua direção. Desço as escadas e saio para a rua. À minha frente passam como carruagens de um metropolitano, a Praça Tiananmen, a Torre Eiffel e a Casa Branca. Estico-lhes o dedo do meio e invectivo-as num Estudo de Perspectiva. Onde raio é que estou?

*Cineasta
*Texto escrito de acordo com a nova ortografia

Leia mais na edição impressa ou torne-se assinante para aceder à versão digital integral deste artigo