Opinião

Analfabetismo operacional

6 abr 2017 00:00
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Ninjas e Princesas: Rita Gomes

Sabem o que é? Nunca ouviram falar, pois não? Nem eu, mas fazia sentido que essa expressão existisse…

Conhecem algum adulto daqueles que sabe ler e escrever, até tem a escolaridade obrigatória ou mais, mas depois na prática, em termos operacionais, é incapaz de fazer um simples recado?

Eu conheço, mais do que um até. E é coisa para dificultar a vida das pessoas, na idade adulta, na procura de emprego ou mesmo no desempenho da profissão ou da vida pessoal. Há quem ache que é só preguiça, que são pessoas que tiveram sempre quem fizesse essas coisas por eles e que quando tiverem de fazer serão capazes.

Mas eu cá acho que não, acho que ficam mesmo “analfabetos dos recados”, não sabem ir às finanças, segurança social, tratar de contadores de água e luz, assuntos de condomínios, impostos, papéis, coisas aborrecidas, vá… mas não é preciso ser assim tão complicado, há casos extremos de adultos que não sabem ir à farmácia, não sabem comprar comida (sabem, mas não sabem se o que estão a comprar é bom ou os preços médios dos produtos, por exemplo), não sabem pedir indicações na rua (preferem andar perdidos e a perder tempo) ou ir fazer o cartão de cidadão.

E isso é grave. Investimos tanto tempo a ensinar os nossos filhos (com a escola, mas muitas vezes nós também, em casa) coisas que nunca vão utilizar nem uma única vez na vida, a não ser que a ganhem a participar em “quizzes” televisivos de cultura geral; mas depois os miúdos crescem e nem sabem ir à mercearia comprar pão.

Não quero com isto “adultizar” os meus filhos antes do tempo! Terão muito tempo para se preocupar com contas no banco, impostos e aborrecimentos afins… mas quero dar-lhes as ferramentas para serem autónomos e organizados, quero que no dia em que tenham de ir falar com uma imobiliária para fazer um contrato de arrendamento saibam o que é preciso, quero que quando forem fazer a inscrição na Universidade (se forem…) consigam preencher os impressos necessários com certezas do que estão a fazer, que não assinem contratos com cartões de crédito e operadoras de telecomunicações sem ler e perceber as condições, que sejam adultos operacionais, sem medos, sem limitações no que podem fazer, desde tirar o passe dos transportes públicos até inventar uma nova forma de passar a ferro, automática e grátis.

O mundo é o limite desde que ensinem os vossos filhos a ser desenrascados.