Opinião

Ainda a miséria

8 fev 2018 00:00
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João Nazário, director do Jornal de Leiria

Os idosos são mais acarinhados e têm um fim de vida mais digno nos chamados países de terceiro mundo (excluindo, obviamente os que estão em guerra) do que no mundo ocidental, dito civilizado.

A proposta do CDS-PP e do PAN para criminalizar o abandono de idosos em hospitais e outras unidades de saúde, deveria ser analisada, antes de se decidir se sim ou se não, na óptica do porquê.

Ou seja, perceber as razões que levam a propor-se uma medida dessa natureza num País que se diz desenvolvido e que, em teoria, teria a generalidade dos seus idosos bem acompanhados e com um tratamento digno. Num País onde a legislação deste assunto não deveria fazer qualquer sentido.

Infelizmente, não é essa a realidade pois, ano após ano, vai-se assistindo ao prolongar do desprezo por quem está mais perto do fim de vida, deixando-se a nu os princípios e os valores da sociedade que se tem vindo a construir.

Uma sociedade onde tudo parece ser descartável e onde a frieza dos números e das ambições se sobrepõe claramente aos afectos e ao humanismo. Em que se vive sob as bandeiras da mobilidade, das experiências únicas e da realização pessoal, sempre com o crescimento económico a servir de mastro.

No fundo, se pensarmos bem, os idosos são mais acarinhados e têm um fim de vida mais digno nos chamados países de terceiro mundo (excluindo, obviamente os que estão em guerra) do que no mundo ocidental, dito civilizado.

Poderão viver alheados das novas tecnologias e com piores cuidados de saúde e de conforto, mas passam os dias acompanhados pelos que lhes são mais próximos, havendo ainda, inclusive, sociedades em que os idosos são as pessoas mais consideradas, até na tomada de decisões.

Por cá, seja num lar de luxo ou numa cave sem quaisquer condições, a maioria dos idosos vive, na prática, sozinha, se isso quiser dizer longe das suas famílias. Mesmo muitos dos que têm boas condições económicas, vivem longe dos seus filhos e netos, tendo que se contentar com umas conversas por telemóvel ou por skype.

O problema agrava-se, obviamente, em famílias com dificuldades, onde o dinheiro não chega para pagar um lar ou para contratar alguém que tome conta dos pais ou avós.

Quando a pobreza monetária se cruza com a de espírito, os idosos são deixados completamente à sua mercê em casas sem condições e sem qualquer tipo de assistência, onde alguns acabam por falecer.

Outros, por alguma razão de saúde, são encaminhados para os hospitais e aí ficam, com os familiares a recusarem-se a levá-los e a só se lembrarem da sua existência na altura de disputarem a herança.

São casos extremos e não a maioria, felizmente, mas elucidativos da miséria que ainda se vive em Portugal, mas também da falta de resposta do Estado, que teria a obrigação de ter solução para estas situações.

Por muito na moda que estejamos e por mais desenvolvidos que sejamos em algumas áreas, nunca poderemos ser considerados um País evoluído enquanto não tivermos capacidade de resposta para quem é mais frágil.

Criminalizar o abandono de idosos? Sim, claro. Mas onde fica a responsabilidade do Estado?

*Director