Opinião

Acordei campeão num hotel em Cork

20 jul 2016 00:00
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Carlos Martins

Gritei "GOLO!" e "o Éder??" num quarto sem eco de casa e chorei. Gritei "GOLO!" e "o Éder??" num quarto sem eco de casa e chorei. Gritei "GOLO!" e "o Éder??" num quarto sem eco de casa e chorei. Desalmado cheio de abraços para dar.

Podia tê-los dado aqui, os irlandeses são lindos e identificam amor e felicidade com extrema facilidade. Mas não dei. Recebi mensagens, telefonemas, não consegui responder, não consegui falar, estava com o meu país no peito (e agora, já no aeroporto choro outra vez, madalenamente, que disparate).

É impossível esquecer este fim de semana. No sábado vi uma artista que queria ver há muito tempo, conheci-a e para mim já estava bom. Depois isto, depois perceber que há realidades tão para lá de qualquer sonho, depois de termos sido malditos e desvalorizados. Nenhum filme passaria do papel com este argumento, de tão delicioso cliché. É talvez uma parvoíce lembrar-me do Fernando Pessoa e da ideia de estar mais perto dum Portugal cumprido, mas não sei evitar, talvez não seja importante a forma como nos lembramos quem somos, desde que nos lembremos mesmo. E choro. Daqui a pouco esta gente preocupa-se comigo.

Os irlandeses fazem lembrar um pouco as pessoas do Norte de Portugal, são super atenciosos, não te indicam direcções, levam-te lá e dizem palavrões sempre que podem. Quando cheguei aqui senti um estranho voltar-a-casa, um calor calmo, seguro e nunca sequer cá tinha vindo. É o país perfeito para meteres conversa. Seja com quem for.

Conheci um músico de rua que está a juntar dinheiro para comprar meio hectare em Silves. Ainda estive para dizer: "mas porquê? aqui está tão bom" só que depois lembrei-me que Silves também não é mau. Conheci um Michael que insistiu que lhe chamasse Miguel só para ficar mais perto da minha conversa e uma produtora que quando soube que fui àquela cidade com pouco mais de 10 mil pessoas de propósito para ver a Lisa Hannigan disse: "well it's fuckin' great to hear that" e foi por causa dela que conheci a artista.

Voltando a Portugal. Tenho abraços por dar, tenho um nó para desfazer, tenho de dizer campeões e chorar à volta de quem diz o mesmo e chora o mesmo. O primeiro português que me aparecer à frente vai ser o recipiente do meu maior abraço. Mesmo que seja o Durão Barroso. Abraço-o, grito campeões e amasso-lhe os tintins. Vou embarcar. À campeão!