Opinião

A ternura dos Quarenta

12 jun 2017 00:00
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Fernando Ribeiro, músico

A minha mãe tinha apenas 26 anos e nós os três - eu e os meus irmãos, já estavamos no mundo. Quando os meus pais chegaram aos Quarentas, eu já tinha idade para observar.

Vi muita coisa, percebi alguma, mas o que permaneceu para memória futura, foi o que não percebi na altura e que agora aos quarenta e dois, encaixa, finalmente, no quebra-cabeças da vida.

Por vezes, achava os meus pais infantis.

Gostavam de passear, de se meterem em provas matutinas de Atletismo, de organizar bailes pela noite fora. Eu era muito de casa e estranhava isso. Estranhava eles não passarem mais tempo em casa a descansarem comigo, trabalhavam tanto.

Era ou estava-me tornando adolescente, vivendo em casa com toda a familia mas nunca me tinha sentido tão afastado deles. Depois, comecei a gostar desta inesperada privacidade que me permitia uma certa liberdade em casa.

As diferenças foram-se encaixando, o amor familiar, esse, nunca mudou, nem irá mudar, e em retrospectiva compreendi as idas diárias ao café, as férias quase à força, os amigos que entravam e saiam de casa.

Também por essa altura começávamos a ver os nossos pais de luto. Morriam os seus pais, os avós, familiares, tios, amigos, amas, sobrinhos. irmãos. Uns no curso natural da vida, outros arrancados dela de uma forma que nada sobrava  para qualquer tipo de explicação ou coping.

Morriam também os seus ídolos musicais e artisticos. Nós não achávamos grande importância a esse desaparecimento, ou então não o compreendiamos na sobranceria inocente de quem tem todo o futuro pela frente.

Até que agora, de súbito, é a nossa vez. Os nossos pais, avós, familiares, tios, amigos, primos, ídolos. As nossas redes sociais são obituários. Mesmo que não se gostasse de alguém famoso que morreu, a simpatia pelo óbito tem hoje remotos contornos sociais e culturais.

Depois... a vida real. Os nossos amigos a chorarem nos nossos ombros como crianças. A cabeça deles apoiada no nosso ombro. As lágrimas nem sempre  silenciosas. O olhar cansado e frustado de quem sente que não fez tudo, de quem não disse tudo, de que não aproveitou assim tão bem o seu tempo.

A História repete-se. A Morte também. E por muito avançada que estejam as nossas medicinas  e sociedades, de súbito, é a nossa vez.

E não podemos fazer nada contra isso, senão irmo-nos preparando para que as nossas pessoas e o nosso mundo se vão extinguindo aos poucos até nós sermos, fisicamente, uma das únicas memórias que permanecerá no nosso futuro feito de vida e de morte.

*Músico e vocalista dos Moonspell