Opinião

A mulher de César e as gémeas

24 out 2026 21:00

Já desempenhei funções públicas. Se o caso me viesse da Presidência... dava-lhe andamento. António Sales nada de mal fez. Foi vítima involuntária

1. Uma frase com história Roma, séc. I a.C., era Júlio César Pontífice Máximo. Pompeia, esposa de César, organizou em sua casa uma celebração em honra da bona dea (“deusa boa”); tais festas eram exclusivamente reservadas a mulheres.

Mas um jovem, disfarçado de tocador de lira e com o desejo de se aproximar de Pompeia, conseguiu introduzir-se furtivamente. Foi descoberto antes de se chegar perto de Pompeia, o que a deixava livre de qualquer acusação.

Mesmo assim, César divorciou-se dela. Não era culpada de nada e ele sabia, mas, argumentou, a sua esposa devia estar sempre acima de suspeita; daí nasceu a máxima “à mulher de César não lhe basta ser séria; é preciso também parecê-lo”.

É em nome dessa máxima que titulares de altos cargos tombam, ainda que inocentes, porque “à mulher de César não lhe basta ser séria; é preciso parecê-lo”. Pompeia nada de mal tinha feito. Foi apenas vítima. Vítima inocente.

César ficou livre e veio a desposar Calpúrnia Pisónia, que vinha cobiçando, por interesses políticos. Mas essa é outra história. Será mesmo outra história?

2. Coisas de hoje António Lacerda Sales está na vida pública há tempo suficiente para não restarem dúvidas sobre a sua integridade. Não é por amizade que o digo, mas por estar profundamente convicto: é um cidadão comprometido com a causa pública e com o seu empenhamento em servi-la. Empenhado no Serviço Nacional de Saúde, o que incomoda muita gente.

Dele todos guardamos a imagem de alguém que serviu sem se servir e, sobretudo, a imagem de um político que sofreu connosco nas horas mais difíceis. Alguém que contava os mortos (lembram-se da pandemia ou está já longe demais?) como se seus fossem.

E nunca esquecerei a sua comoção no dia em que, escondido atrás de uma lágrima teimosa, nos disse a todos, ao anunciar a contabilidade diária: zero mortos hoje. E todos nos emocionámos com ele, porque sabíamos que estava a anunciar-nos a via da esperança reacendida.

Pois bem, podemos não saber muito, mas sabemos o mais importante: chegou às mãos de António Sales, por vias institucionais, o assunto “das gémeas”, remetido da Presidência da República.

Não sabemos quem o enviou, mas sabemos de onde vinha: da Presidência. Nestas condições, que se esperaria que fizesse? Que travasse um assunto que vinha da Presidência? Alguém o faria no seu lugar? Já desempenhei funções públicas. Se o caso me viesse da Presidência... dava-lhe andamento.

António Sales nada de mal fez. Foi vítima involuntária.

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990

3. O que tem uma história a ver com a outra? Talvez nada. Ou talvez muito.

Resta acrescentar uma nota: a máxima menciona “a mulher de César”. Quem está no topo da pirâmide dirá que se refere apenas à “mulher de César” e não ao próprio César. Pois...