Opinião

A (In)existência do Tempo

17 fev 2024 10:25

O tempo pode parecer simples, mas é realmente complexo: é feito de diferentes camadas, de "pequenos nadas"

Deixei de usar relógio no pulso. E por um acaso, descobri que em 2020 no evento “The Nature of Time” (A Natureza do Tempo), organizado pela revista New Scientist, o físico teórico Carlo Rovelli pegou num cordel e esticou-o de uma ponta à outra do palco, pendurando uma caneta no meio da corda para marcar o tempo presente.

Rovelli disse: “É aqui que estamos”. Então, ergueu o braço direito e apontou para a direita: “Ali é o futuro”. De seguida, apontou para a esquerda e disse: “E ali é o passado”. Logo a seguir, afirmou: “Este é o tempo do nosso dia-a-dia: uma longa fila, uma sequência de momentos que podemos ordenar, que tem uma determinada direção e que podemos medir com relógios”. “E todos nós concordamos que existem intervalos de tempo entre dois momentos diferentes ao longo de um rumo, ao longo de uma linha”.

Rovelli decidiu dedicar a sua vida ao desafio de conciliar duas teorias: a mecânica quântica (que descreve o mundo microscópico) e a relatividade geral de Albert Einstein. Para chegar a uma nova teoria, afirma que devemos construir um esquema mental que não tenha que ver com a nossa concepção usual de ‘espaço-tempo’. Há que pensar o mundo de uma nova perspectiva, em que o tempo não é uma variável contínua, mas uma outra coisa. «Uma ilusão. A distinção entre passado, presente e futuro não passa de uma firme e persistente ilusão» (Albert Einstein).

O tempo pode parecer simples, mas é realmente complexo: é feito de diferentes camadas, de «pequenos nadas», alguns dos quais, apenas relevantes para certos fenómenos e circunstâncias, e não para outros. Talvez isso nos remeta para o genuíno «sentido da vida», a rica combinação de necessidades, desejos, aspirações, ambições, ideais, paixões, amor e entusiasmo, que surgem em várias medidas e em diferentes versões, implicitamente, provenientes da (in)consciência, ou do nosso estado físico e psicológico do momento.

A vida é uma explosão de significados. Alguns projectaram o significado da vida fora de si mesmos, ficando desapontados ao perceber que havia algo ilusório na espera de um sentido proveniente do exterior e não da sua interioridade. A resposta a essa virtude do propósito da vida revela-se nos versos atemporais de Alberto Caeiro: «O que é a realidade? Eu quero só a realidade, as coisas sem presente». Por essa razão deixei de usar o pulsar do relógio, pois apenas «Quero as coisas que existem, não o tempo que as mede».