Opinião

A cultura produto

8 mar 2018 00:00
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João Nazário, director do Jornal de Leiria

No fundo, ao elogiar o Leirena com aquelas palavras (mereceriam outras) está a mandar os ‘pedintes da cultura’ arranjar dinheiro noutros lados, nomeadamente junto do sector empresarial privado.

“Quero deixar-lhes uma palavra de reconhecimento por terem sido os únicos a não me pedir dinheiro quando se foram apresentar”. Foi com estas palavras, dirigidas aos responsáveis pelo Leirena, que Celeste Amaro, directora da Direcção Regional da Cultura do Centro, indignou muitos agentes culturais.

Celeste Alves deixou, dessa forma, uma crítica clara aos que reclamam por apoios para desenvolver os seus trabalhos, deixando no ar a imagem do condutor enfadado com o arrumador de carros que pede uma moeda.

No fundo, ao elogiar o Leirena com aquelas palavras (mereceriam outras) está a mandar os ‘pedintes da cultura’ arranjar dinheiro noutros lados, nomeadamente junto do sector empresarial privado.

Obviamente que a figura dos mecenas sempre foi fulcral na história das artes, como é importante que os agentes culturais consigam receitas através das suas iniciativas e não se bastem com subsídios, mas uma pessoa com as responsabilidades de Celeste Alves teria obrigação de saber que sem apoios estatais muito do que melhor a humanidade produziu em termos culturais nunca teria acontecido.

Sendo a cultura um pilar da nossa sociedade, a par da educação e da saúde, as palavras de Celeste Amaro só podem ser entendidas como um disparate que a colocam como um produto comercializável como outro qualquer.

Ou seja, se a sua lógica imperasse muitos projectos artísticos desapareceriam por inviabilidade económica, principalmente os de maior vanguarda e mais disruptivos, e, com os preços obrigatoriamente mais altos, seria impossível ter uma cultura de acesso universal, como é desejável numa sociedade civilizada.
 

A intenção da Câmara Municipal da Marinha Grande em investir mais de 200 mil euros num monumento de 12 metros de altura que funcione como um memorial alusivo ao incêndio que devastou o Pinhal de Leiria é, no mínimo, questionável.

Em primeiro lugar porque a verba em causa parece claramente excessiva se tivermos em conta que ainda há muitas famílias e empresários afectados pela tragédia a suplicar por ajuda, mas também porque a Marinha Grande continua a aguardar por alguns equipamentos que, apesar de há muito prometidos, ainda não saíram do papel, de que são exemplos gritantes a piscina e o mercado municipais.

Por outro lado, porque não parece fazer muito sentido assinalar de forma tão ostensiva no espaço público uma tragédia de tão má memória. Não que se deva esquecer o que aconteceu, obviamente, mas também não seria necessário que a escultura, como refere o artista escolhido, Fernando Crespo, “seja avassaladora tal como avassaladora foi a desgraça (...) que a dimensão [da obra] seja tão perturbante para o espetador como a tragédia foi para a população”.

Mais do que perpetuar a tragédia de forma tão vincada e perturbadora, seria talvez mais interessante deixar para memória futura uma homenagem a quem combateu o fogo, aos que se esforçam por recuperar o pinhal e a todas as pessoas, empresas e instituições que se mobilizaram para ajudar quem tudo perdeu.

A melhor homenagem ao Pinhal de Leiria será a sua rápida e cuidada reflorestação e um maior cuidado para que não se repitam imagens dantescas como as que em Outubro deixaram todos em choque, parecendo dispensável “criar qualquer coisa que simbolize aquela desolação”, nas palavras de Fernando Crespo.

*Director