Opinião

A culpa é dos mais vulneráveis!

30 jun 2026 21:30

Vamos obrigar pessoas com deficiência e com cancro a fazer trabalho social, enquanto os Ricardos Salgados deste país vão escapando impunes

Artigo publicado originalmente na edição 2189 do JORNAL DE LEIRIA, de 25 de Junho de 2026

Confesso que tenho feito um esforço enorme para não escrever sobre política. Há quem pense que as pessoas ligadas às artes não deveriam abordar esses assuntos, mas hoje tenho de o fazer. No entanto, quero assinalar que não sou simpatizante de nenhum partido, muito menos seria daqueles que nos vão governando.

Temos vivido numa rotatividade entre o partido socialista e o partido social-democrata e, na minha opinião, ambos se esquecem dos seus princípios e valores quando chegam ao poder. O partido socialista tem o costume de colocar o socialismo no bolso e o partido social-democrata atira simplesmente a social-democracia para as urtigas mais próximas. É por essa razão que acho que as mulheres que trabalham em casas de alterne têm muito mais dignidade do que aqueles que elegemos.

Devido a uma enorme cadência de vícios, começamos a observar a ascensão dos lambe-botas. Um comentador que lamba as botas certas na altura certa consegue ir subindo na pirâmide (aqui há estrelas!). O mérito não faz parte do vocabulário de quem toma decisões. Já nem respeitamos uma pequena minoria de pessoas com cerca de 80 anos e com dificuldades económicas que sobrevivem com o Subsídio de Mérito Cultural.

Para o atual governo, o grande problema são os mais vulneráveis! Pelos vistos, vamos obrigar pessoas com deficiência e com cancro a fazer trabalho social, enquanto os Ricardos Salgados deste país vão escapando impunes aos seus crimes porque a justiça é demasiado lenta! Depois inventam uma série de narrativas absurdas e nada prioritárias, quando realmente os grandes problemas do nosso país são os preços absurdamente inflacionados da habitação, os salários miseráveis, o crime continuado contra mulheres e crianças… e a lista continua!

Este governo fez um esforço colossal para abrir o Estreito do trabalhador, um pacote que nem estava no seu programa de governo. A única conclusão que consigo tirar é que podemos tirar o homem da Spinumviva mas não podemos tirar a Spinumviva do homem.