Opinião

A composição das férias

25 ago 2016 00:00
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NINJAS E PRINCESAS: Ricardo Graça

As minhas férias foram do caneco. Os meus pais disseram-me que íamos para uma praia em Vilamoura. Fiquei mesmo muito contente, adoro brincar na areia, até acho que ainda ando aqui com um bocadinho dentro das orelhas, porque cada vez os oiço pior.

A praia era muito fixe. Ficávamos sempre longe do mar e para lá chegar tínhamos de fazer curvas super apertadas por entre as toalhas das pessoas, grande parte dessas pessoas tinham uma certa idade e escondiam-se debaixo de chapéus-de-sol com publicidade a marcas de café, cervejas ou gelados, super fixes e coloridos.

Outras tinham desenhos no corpo, frases árabes e chinesas, mas, falavam francês e pareciam mesmo portugueses. Estranho não é?! A Quarteira é mesmo um mundo.

Acordávamos sempre cedinho. O meu pai todos os dias dizia que ia correr uns quilómetros pela fresca. Até trouxe as sapatilhas super velozes dentro de um saco de plástico mas elas nunca de lá saíram. Ele era sempre o último a acordar, eu e a minha irmã até tínhamos de o empurrar para fora de um colchão que estava no chão para ver se ele ia comprar o pão.

Acordava sempre com ar de quimono a meio de um combate, devia ser de tanto Jogos Olímpicos na televisão. Para mim estava tudo bem, mas deu-me a sensação que num hotel é que era, foi o que eles disseram… várias vezes, com aquele ar cansado lá deles.

Antes de irmos para a praia parávamos sempre num café qualquer. Para o cromo do meu pai beber um café e fumar um cigarro. Ele, que me prometeu deixar de fumar para sempre e que mais uma vez vacilou.

Era uma seca e parecia sempre que estávamos a incomodar o negócio. Meia hora para sermos atendidos, sem sinais de simpatia, mas como estávamos numa zona com pouco turismo talvez fosse normal.

A vingança por tal provação foi servida em forma de golpes insistentes de: ”Pai, posso?” Apliquei-lhos todos os dias e várias vezes ao dia e “Pai, posso andar na Zebra? Pai, posso comer um gelado? Pai, posso ter aquele crocodilo insuflável?”

O malandro desviou-se de todos os golpes com um não e uma boa dose de transpiração. Voltem avós, estão perdoados.

De todos, o primeiro dia foi o que mais gostei. Foi uma aventura. O meu pai partiu o dedo mindinho daquele pé de princesa que ele tem. Mandou cá uma cacetada no móvel da sala! Até a mim me doeu!

Mas como estava ao pé do meu avô só ganiu um bocadinho, embora, pela cara dele, lhe apetecesse dizer mais qualquer coisinha, mas lá se aguentou. A seguir, no mar, foi mordido, também no pé, por um peixe-aranha. Coitado, deve ter sido horrível, fez-me ver que na vida é preciso sorte, até para ser peixe-aranha.

Comi bolas de Berlim e bebi água do mar sem pensar nos ingredientes. Fiz castelos. Fiz asneiras e brinquei muito.

No fim do dia os meus pais arrumaram, pagaram, carregaram, limparam, cozinharam e trataram de tudo. Nos outros dias foi igual só que sem a novidade e os incidentes com os pés do meu paizinho.