Opinião

A arte de segurar o tempo

21 fev 2026 16:24

O que transforma esse conjunto heterogéneo numa comunidade funcional é a existência de direção, não por imposição, mas por orientação

Uma orquestra sinfónica é talvez uma das metáforas mais claras da vida em sociedade. Ali convivem instrumentos com naturezas distintas, técnicas diferentes e sensibilidades próprias. Um fagote não pensa como um trombone e uma tuba não respira como um violino. No entanto, todos partilham o mesmo pulso e o mesmo desígnio.

Por essa razão a figura do maestro é de extrema importância, apesar de não produzir uma única nota de uma partitura, é ali que o som começa. Uma batuta suspensa no ar, num gesto quase invisível e subitamente temos perto de 100 pessoas a respirar em sintonia. Não por imposição, mas por entendimento. Não por medo, mas por confiança. 

O maestro estuda a partitura, antecipa tensões e cria equilíbrios. Quando levanta os braços não está a improvisar liderança, está a materializar preparação. O gesto que parece espontâneo é na verdade o culminar de uma enorme reflexão. Numa sala de concertos, a respiração coletiva não se pode perder. Tal como numa sociedade, a harmonia não é apenas o resultado de normas ou estruturas, é sobretudo fruto de confiança partilhada.

Quem segura a batuta serve a obra! E a obra, seja uma sinfonia ou uma comunidade, é sempre maior do que quem a dirige. As sociedades não são muito diferentes. Nelas coexistem talentos variados, interesses distintos, ritmos desencontrados. Há momentos de tensão, dissonâncias inevitáveis, passagens que exigem contenção e outras que pedem expansão. O que transforma esse conjunto heterogéneo numa comunidade funcional é a existência de direção, não por imposição, mas por orientação.

Um país não falha por falta de pessoas competentes, falha quando não existe uma visão que alinhe esforços dispersos. Quando a liderança é hesitante ou ambígua o tecido coletivo começa a desfazer-se, entra em colapso! Se a Constituição for a partitura, as instituições os naipes da orquestra e não existindo um líder que saiba conduzir uma comunidade com a sua batuta, a “orquestra” começa a fragmentar-se.

Texto escrito segundo as regras do novo Acordo Ortográfico de 1990