Sociedade

Villa Portela poderá ser centro cultural de Leiria

21 jul 2016 00:00

A Villa Portela e o parque verde à sua volta originam paixões a quem vive ou visita Leiria. Encerrada há anos, poderá agora, caso os desejos do proprietário Ricardo Charters d’Azevedo se concretizem, vir a renascer como centro cultural e pulmão urbano

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Jacinto Silva Duro

"A Villa Portela sempre fez nascer muitas invejas", desabafa o actual proprietário Ricardo Charters d'Azevedo. Não é para menos.

No final do século XIX e início do século XX, o belo palacete de tom rosa desmaiado olhava, de cima para baixo, a pequena cidade de casas baixas, sonolentas, na margem do Lis, do alto do seu morro.

À volta, estendiam-se campos agrícolas. Em contrapartida, sempre que a população e as elites de Leiria olhavam para cima, viam o seu fulgor de pôr-do-sol. Na actualidade, continua a ser um espaço desejado.

Por um lado, é um dos pouco locais com árvores, numa cidade que não soube criar parques e jardins públicos e onde o cimento e o alcatrão são reis e é também o único espaço livre de urbanizações no centro de Leiria.

Também poderá ser ali o há muito desejado centro cultural de Leiria. "Legar uma Serralves a Leiria" é o sonho de Ricardo Charters d'Azevedo para a ancestral casa da família, que herdou há seis meses.

Tudo está dependente, afirma, de haver parceiros à altura do desafio. As negociações, com entidades privadas e públicas, já começaram e espera ter tudo resolvido até Dezembro, caso contrário, avançará para um Plano B e criará "escritórios para advogados e um restaurante", nos mais de 17 mil metros quadrados da Villa Portela.

Definitivamente afastada, está a ideia de criar ali um equipamento hoteleiro. Mas o seu coração pende para a criação de um centro cultural e de artes que seria a concretização de um sonho lançado pelo pai, Roberto, que não só desenhou um projecto arquitectónico para o espaço cultural, nos idos de 40, do século passado, como até disponibilizou à autarquia o terreno, porém ambos foram recusados.

Uma “Serralves em Leiria” seria também uma oportunidade única para uma cidade que poderia ter um centro cultural no chamado "buraco da rua direita", mas que optou por edificar naquela zona de Leiria um edifício que serve para muito pouco e a muito poucos.

"Gostaria de ver ali uma casa de cultura como o meu pai falava, com valências expositivas e de eventos e um pequeno restaurante. O jardim poderia estar aberto à população, com espaço infantil, e haveria pequenos quiosques em madeira a servir de apoio", afirma, adiantando que, como não tem filhos, ele e a mulher gostariam de legar à cidade um "equipamento capaz" e resolver-se-ia o problema "da inveja da cidade".

Por dentro da Villa Portela
Franquear as portas do palacete é fazer uma viagem no tempo. Os tectos altos e as janelas rasgadas dão a sensação de regresso a épocas em que os cavalheiros usavam chapéu e queirosianos bigodes, enquanto as senhoras orientavam a criadagem e recebiam as visitas rodeadas de veludos e brocados.

A meio da casa ergue-se uma imponente escadaria, com um corrimão que desce às curvas do segundo andar ao rés-do-chão e por onde Ricardo Charters d'Azevedo, em criança, costumava deslizar, provocando a irritação da avó, que lhe gritava que não o fizesse.

"O truque era conseguir chegar lá abaixo e sair em pé", recorda com orgulho. Os tectos ostentam altos relevos inspirados nos motivos arábicos do antigo palácio real d'A Alhambra, no antigo reino muçulmano de Granada.

Por estes dias, os corredores vazios, por onde ecoam os passos na madeira do pavimento, e os quartros desabitados provocam sentimentos de saudade ao actual proprietário. "Isto para mim é triste. É uma casa vazia", diz, encaminhando-se para a "sala verde", de grandes janelas, viradas para o largo da República, onde os donos da casa recebiam as visitas.

Estas acediam à casa pela entrada principal, ali ao lado. Quem já era conhecido na casa, atravessava as portas com grandes vidraças coloridas com as iniciais do proprietário inicial RCA - o bisavô Roberto Charters d'Azevedo, falecido em 1942, no mesmo ano em que Ricardo nasceu.

Os estranhos ficavam à espera que os atendessem na "sala verde", na salinha de visitas, onde tomavam um chá e diziam ao que vinham. Nas traseiras, encontramos o escritório do bisavô, com uma porta para a rua.

Por ali, entravam os rendeiros para pagar as galinhas, os ovos ou o azeite da renda. A meio da casa, com uma enorme pia da loiça e com o único lar onde se acendia o fogo na villa, está a estratégica cozinha e, do outro lado do corredor, a cavernosa sala- -de-jantar, de paredes e tectos igualmente decorados ao melhor gosto da época. Uma chave roda numa fechadura que precisa de ser oleada e a porta abre-se.

No primeiro andar, ficavam os quartos da família. No último, onde o proprietário teve, mais tarde, o seu estúdio de radioamadorismo, estavam os das criadas solteiras, que tinham direito a uma das duas casas de banho do palacete. A outra ficava anexa ao quarto principal, do dono da casa.

No topo, ficavam também as salas para engraxar os sapatos e para outros fins. Qualquer semelhança com Downton Abbey é simples coincidência. De regresso ao primeiro piso, descobrimos ao fundo de um corredor à direita o quarto do bisavô Roberto.

Num dos topos tinha o quarto de vestir e a casa -de-banho do dono da casa e, no outro, o boudoir, de tecto decorado com florzinhas, da dona. Ao lado, estava a salinha onde recebia as amigas para o chá. Desde 1942, que a casa não é habitada permanentemente. A vida regressava, nas férias e especialmente nos meses de Verão.

O actual proprietário da Villa Portela recorda os atentados que os Executivos da autarquia fizeram à propriedade. F

oi o caso da destruição da alameda de palmeiras e expropriação do espaço usado para criar o largo da República em frente à Câmara, o verdadeiro entaipamento pelos prédios da avenida Marquês de Pombal e até o plano que previam o fim do parque verde, a criação de um campo de futebol e até de um hotel de turismo, sempre à revelia dos proprietários.

Prémio Villa Portela
Em busca da identidade e memória da região

A salvaguarda valorização e divulgação do património de Leiria e da região à volta, premiando o trabalho dos investigadores que desenvolveram os seus estudos nesta matéria é o objectivo da terceira edição do Prémio Villa Portela, organizado pelo Cepae - Centro do Património da Estremadura, com a parceria da Câmara de Leiria, do Instituto Politécnico de Leiria e da Adlei - Associação para o Desenvolvimento de Leiria, que também farão parte de um júri, coordenado pelo docente universitário Saul António Gomes.

O galardão nascido da mente de Ricardo Charters d’Azevedo pretende ainda homenagear os antepassados do proprietário do imóvel emblemático da cidade e da região, contando com um valor patrimonial de dois mil euros.

“Esta será a terceira edição do prémio, depois de as duas primeiras terem sido asseguradas pela Adlei. Desta vez, será o Cepae a coordenar o prémio, uma vez que ele está enquadrado com o nosso foco e área de trabalho”, explicou o presidente do organismo Micael Sousa, durante a apresentação da iniciativa.

A data limite para admissão dos trabalhos é o dia 15 de Outubro.

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