DEPRESSÃO KRISTIN
“Temos de ser uns para os outros”. Ajuda do Minho em Monte Real e um presidente de junta a estrear-se com baptismo de fogo
Na freguesia do autarca Rui Pereira, 300 voluntários dão força à reconstrução, entre eles, Cláudia, de Famalicão, Tiago, de Braga, e Liliana, de Barcelos
Mesmo debaixo da depressão Marta, ninguém baixa os braços. Ao final da tarde de sábado, em Monte Real, a operação de limpeza e reconstrução desagua no hotel das termas, onde voluntários de norte a sul de Portugal se misturam com militares, bombeiros, autarcas e moradores da freguesia, no norte do concelho de Leiria.
Para muitos, é hora de recuperar forças, após um dia inteiro no terreno.
Na sala em que as conversas se cruzam como num hospital de campanha, encontram lanche e, finalmente, oportunidade para uma pausa. À volta da mesa, entre a sopa e o panado, João, Ana, Liliana, Catarina e Bruno retomam o fôlego antes de regressarem a Barcelos, de onde saíram pelas cinco da manhã.
Na União de Monte Real e Carvide, há um presidente de junta a estrear-se com baptismo de fogo no primeiro mandato e 300 voluntários que chegam de mangas arregaçadas.
Nem a chuva nem o vento travam a solidariedade. “Fomos levar alimentos à Marinha Grande, depois fomos para Vieira de Leiria, os colegas estiveram a reparar dois telhados, da parte interior, daí mandaram-nos para Monte Real, estivemos a apanhar alguns destroços”, explica o grupo de Barcelos. “Viemos porque se fosse ao contrário também gostaríamos que viessem ajudar”.

“A destruição, quer nas árvores, quer nos telhados”, não deixa de os comover, apesar das imagens tantas vezes repetidas à distância na última semana, através da televisão ou do ecrã do telemóvel. “E a primeira casa que ajudámos, ainda estão sem luz”. Oferece-se uma lanterna e pilhas novas, na tentativa de atenuar os efeitos do temporal, que persistem, ao fim de 11 dias.
Neste sábado, 7 de Fevereiro, os autarcas de Leiria, com o presidente de Câmara, Gonçalo Lopes, à cabeça, divulgaram uma carta aberta dirigida ao presidente do conselho de administração da E-Redes em que assinalam “as queixas, o cansaço e a exaustão de quem já não consegue suportar mais dias sem electricidade”.
Ontem, pela hora de almoço, mantinham-se 20 mil clientes desligados, só no concelho, o que “tem vindo a gerar ansiedade, indignação e um sentimento crescente de abandono”.
Perante a experiência das populações mais afectadas pelo mau tempo na madrugada de 28 de Janeiro, “que deve ter sido horrível”, Cláudia Pereira, de Famalicão, lembra que não pode falhar o afecto. “Já demos alguns abracinhos e acaba por ser muito reconfortante. Vale a pena vir”.
É a terceira vez que estão na região, ela e os amigos, no total sete pessoas. Nem sempre se deslocaram todos, mas todos estão prontos para a próxima. “Se for preciso, se nos chamarem, a gente volta cá”.
Na vila e estância turística mantém-se a dependência de geradores e no largo da igreja fica estacionado um camião frigorífico de tamanho TIR onde quem quiser pode guardar alimentos.
De toda a parte, de Bragança ao Alentejo, de Lisboa ao Porto, de Santarém a Aveiro, vem ajuda: telha e materiais de construção, geradores, roupa, lonas, produtos de higiene, comida. E pessoas.
Não faltam voluntários. Das várias centenas a trabalhar em Monte Real neste fim-de-semana, uns 80%, de acordo com a autarquia local, são de fora do concelho, de diferentes regiões do País. “Andámos a varrer as ruas, ainda tinham muita telha, muitas placas, muitas árvores”, explica Cláudia Pereira. “Vimos nas notícias como é que isto estava, impressionou-nos”.
Nas ruas, destacam-se os casacos impermeáveis do grupo O Setenta, de Braga, que, segundo Tiago Monteiro, mobilizou 20 colaboradores. “Trouxemos um lanche à moda do Minho, um coelhinho estufado, um presunto e fez-se disto também um convívio”. Aterraram em Monte Real com 600 metros quadrados de lonas, chapa perfilada, cordas e bens alimentares.
Quando o JORNAL DE LEIRIA encontra Tiago Monteiro, está a sair de uma habitação em que a equipa procura impedir inflitrações e mitigar os estragos causados pela depressão Kristin. “Temos de ajudar, temos de ser uns para os outros. Hoje foi aqui amanhã pode ser lá em cima”, resume. “Achámos que devíamos vir aqui fazer qualquer coisa”. E fizeram. “Reunimos os vários responsáveis das empresas, vimos o que é que podíamos fazer, que dinheiro é que queríamos investir nisto, onde é que íamos comprar, organizámos primeiro isso. Depois, lançámos o repto aos funcionários”.
Para o presidente da União de Freguesias de Monte Real e Carvide, Rui Pereira, a cumprir os primeiros meses no cargo, uma das prioridades é organizar todo o comboio de donativos, que não pára. “Temos quatro sítios: o posto de turismo, o centro paroquial, o antigo campo de futebol do clube recreativo de Carvide que é onde recebemos os materiais de construção em paletes e ainda o clube dos Moinhos de Carvide onde recebemos a palha, o feno e as rações para os animais”. Existem, por outro lado, dois estaleiros, que juntam entulhos, “verdes” e chapas.

Para sábado (7 de Fevereiro) as equipas de voluntários acompanhadas por 12 viaturas foram distribuídas por áreas, com direito a refeição durante o almoço, além de alojamento, para os que precisaram, no centro paroquial de Monte Real, e duche, que também estava disponível nas instalações da Força Aérea na BA5.
Rui Pereira, que é quadro do JORNAL DE LEIRIA, admite que não esperava tanto apoio vindo de longe. “Surpreende-me ser para uma freguesia como Monte Real e Carvide. Se me dissessem que era para Leiria... Agora, chegar aqui é que me surpreende”. E reforça: “Está a chegar de todo o País. Para aqui”.
As intervenções mais urgentes – como as que permitem reabrir as escolas ou dizem respeito a casas especialmente afectadas – estão garantidas, “mas há muita coisa ainda por fazer”. Em especial, no que toca a coberturas de edifícios, o horizonte da reconstrução vai muito para lá das próximas semanas, prevê o presidente da junta. “A grande reparação vai fazer-se no Verão, acredito”.
A primeira vítima conhecida da passagem da depressão Kristin em Portugal residia, precisamente, em Carvide: um homem de 38 anos morreu atingido na madrugada da tempestade quando tentava salvar as estruturas metálicas de um armazém. Também em Carvide, uma mulher foi encontrada sem vida no interior de uma casa móvel, horas depois do temporal. E ainda na freguesia, mas em Segodim, um homem de 74 anos, que tinha um gerador ligado na habitação, faleceu por intoxicação com monóxido de carbono.