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Tânia Bailão Lopes, escritora e ilustradora: "um livro infantil deve chegar a crianças e adultos"

23 jun 2017 00:00

"Muitas vezes, são as crianças que alertam os adultos sobre aquilo que não está bem, questionando -os. Quando somos pequeninos, as coisas são simples e fáceis de assimilar."

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Jacinto Silva Duro

Ao longo dos anos, fomos conhecendo o seu trabalho através de vários heterónimos. A Tânia Bailão Lopes é como Fernando Pessoa e tem várias pessoas dentro de si?
Sim, sou um pouco assim. É como se houvesse, além de mim, outros seres e personalidades. Cheguei a dar vida ao Mirtilo Gomes, que tinha uma frustração muito elevada. Era um senhor com mais de 50 anos com alguma dificuldade em compreender certas questões sociais e pintava-as. Essas representações eram muito marcadas pela crítica social. Tive também o Miguel Alexandre Marto, jovem, sonhador, que vive intensa e desvairadamente. Usava-o para os meus trabalhos mais despreocupados, a que não queria atribuir uma conotação social. Tinha ainda a Aurora Santo que apareceu numa fase onde eu já perspectivava a morte de uma forma diferente. Foi uma época de paz, na minha vida. A Aurora era uma senhora no fim da sua vida que pintava paisagens... e eu nunca fui de paisagens! Mas aquela minha Aurora gostava de paisagens. Como me voltei mais para a ilustração, acabei por me desligar dessas minhas pessoas. Paralelamente, sempre trabalhei com o meu nome.

Acordava de manhã e encarnava uma personagem?
Era mais à noite. Ficava acordada até tarde a trabalhar. Agora está a focar-se mais nos livros para a infância? Tenho um fascínio por pessoas idosas. Quanto mais dementes melhor, porque a temática da demência fasciname e até tive um projecto, a Quinta dos Girassóis, que tinha como objectivo a criação de um centro de apoio às demências e a estas pessoas que precisam de muito afecto e contacto humano. Agora, decidi dedicar-me ao público infantil, pois penso que, se queremos mudar a perspectiva que as crianças têm em relação aos mais velhos, podemos fazê-lo através dos livros infantis. É por isso que, neles, tento sempre lançar mensagens que ficam no ar e, depois, cada um é livre de fazer o que quiser com elas. Muitas vezes, são as crianças que alertam os adultos sobre aquilo que não está bem, questionando-os. Quando somos pequeninos, as coisas são simples e fáceis de assimilar. O meu objectivo agora é chegar às crianças, pô-las a pensar e que elas questionem o Mundo.

Também trabalhou em livros inclusivos...
Comecei a fazê-lo através da exposição inclusiva itinerante Olha por mim, no Instituto Politécnico de Leiria. Era um trabalho conjunto com Josélia Neves e Walter Marcos. Tinha telas do Mirtilo extremamente críticas e com uma componente social, que "casaram" muito bem com a inclusão. Foi algo completamente diferente de tudo o que tinha pensado fazer. No seguimento dessa mostra, aconteceu o livro de Josélia Neves intitulado O menino dos dedos tristes, que sensibiliza para a diferença. Nunca tinha ilustrado um livro infantil e estava perdida. Só sabia pintar telas e não sabia o que fazer. A Josélia pediu-me que lhe pintasse telas e eu pintei três, para o princípio, meio e fim do livro. Foi complicado de publicar porque tinha um CD, língua gestual, pictogramas e texto em glosa.

Foi assim que abriu a porta para a ilustração de livros?
Aquilo eram telas... não era ilustração infantil. Sempre segui o trabalho de muitos ilustradores, mas acreditava que não seria capaz de fazer o mesmo. Lembro-me que alguns amigos viam aquelas telas com personagens de olhos grandes e incentivavam-me a tentar a ilustração. Respondia-lhes que "qualquer dia" tentaria. E, com o tempo, foram surgindo trabalhos. Um deles, o livro Ser Português é, já vai na quarta edição e tem muito sucesso fora de Portugal. Trabalhei muito tempo com a editora Alfarroba... mas era muito complicado trabalhar a tempo inteiro e fazer ilustração depois do emprego. Por isso, fiquei apenas com a parte artística e desisti da assistência social. Neste momento, trabalho apenas em ilustração, paginação e estou a colaborar com a Brisa Editora.

Está a preparar algum livro?
Mesmo para ser publicado, tenho o Alfredo, os teus dentes metem medo. Há relativamente pouco tempo, saiu o Manel, o amigo fiel, que foi escrito por mim para passar uma mensagem acerca do abandono dos animais. Conta a história do Manel, um cachorrinho oferecido no Natal e que, chegado o Verão, foi abandonado pela família. A resposta dos mais novos tem sido maravilhosa. As crianças ficam mesmo tocadas no coração. Eu sou o Alfredo. Tenho pavor de ir ao dentista e só os cheiros do consultório fazem-me transpirar de medo... O livro conta a história de um menino que tinha muito medo dos dentistas mas os amigos tentam mudar-lhe a perspectiva... ele sofria de bullying porque ninguém queria sentar- se ao lado de um menino de dentes podres e que cheira mal da boca. É um livro muito cómico.

É uma colecção temática?
É... mais ou menos. Não lhe chamo colecção. São livros com uma moral. Em 2015, comecei a escrever também os livros que ilustrava. A minha escrita desabrochou e tornei- me muito desinibida. O primeiro livro que escrevi chamava-se Romeu, o touro que não gostava de touradase tudo começou porque estava a ver um programa na RTP que apresentava os toureiros e defendia as touradas, como sendo uma traição nacional. Isso mexeu muito comigo que ou muito defensora dos animais. Na verdade, a tourada não é uma tradição nossa e eu respeito todas as ideias, desde que não se faça mal a alguém ou a animais. Sou incapaz de ficar indiferente. A tourada não é algo de que nos devamos orgulhar... Depois nasceu o Piu Caganita, que é um livro inclusivo, que foi beber inspiração àquela primeira exposição sensorial e aos ensinamentos da Josélia Neves e do CRIID do IPL. Neste momento, estou a trabalhar na Maria Morte, um livro que ajuda a lidar com o luto nas crianças. Aliás, todos nós deveríamos trabalhar essa questão. Já Fernando Pessoa dizia que um livro infantil não deve ser escrito para crianças. Eles percebem muito do mundo em que vivemos e nós percebemos com elas. Um livro infantil deve ter a capacidade de chegar às crianças e adultos. Não precisa de ser sério, mas precisa de deixar uma mensagem no ar para depois fazermos o quisermos com ela. A Maria Morte não fala em religiões, tenta explicar que a morte faz parte da vida e que uma não existe sem a outra. Acredito que as crianças conseguem processar melhor a naturalidade da morte.

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