Economia

Sementes da globalização

20 set 2018 00:00

Para ultrapassar a escassez de mão-de-obra, são muitos os produtores de fruta que recorrem ao serviço de indianos, nepaleses e romenos, entre colaboradores de tantas outras nacionalidades

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Daniela Franco Sousa

São várias as línguas e os dialectos que se ouvem nesta época do ano pelos pomares e pelas vinhas da região de Leiria. Entre os portugueses é difícil encontrar mão- de-obra em número suficiente para proceder à colheita dos frutos, e essa escassez tem vindo a ser contornada pelos empresários com a contratação de trabalhadores vindos de outros pontos do globo.

Muitos deles deixam a família na terra natal, deixam em suspenso os seus cursos superiores e as suas profissões na expectativa de poder encontrar por cá maiores rendimentos e, talvez, um novo rumo para as suas vidas.

Gurunz, Raj e Florim fazem parte de um grupo de cerca de cerca de 50 cidadãos estrangeiros que, por estes dias, dedicam todo o seu esforço à colheita de maçãs num vasto pomar de Alcobaça.

Santos Gurunz, de 37 anos, veio de Nepal, onde deixou a mulher e um filho pequeno, e deixou também pendente uma carreira profissional como operador de vídeo. Gurunz já trabalhou numa indústria de mobiliário, na Polónia, e está agora, há cerca de um mês, em Alcobaça, onde se dedica à apanha da maçã. O nepalês explica que há épocas do ano durante as quais é extremamente difícil trabalhar no seu País, sobretudo nos Himalaias, onde o frio é impeditivo de circular pelas estradas. Está satisfeito com o clima que encontrou por Portugal e admirado com estas macieiras que, sendo tão pequenas, conseguem estar apinhadas de frutos.

De longe vem também Raj, de 22 anos, que concluiu estudos universitários na Índia, na área da Informática, mas que encontrou em Portugal, e designadamente no concelho de Alcobaça, muito melhores condições de vida. Antes de chegar à região, há cerca de três anos, ainda conheceu outras paragens do País, onde se dedicou a outras culturas, como a apanha da azeitona, dos morangos ou das amoras. Mas, ao chegar a Alcobaça, viu o seu trabalho ser de tal forma reconhecido, que depressa passou da alçada da empresa de recrutamento de pessoal para a contratação directa por parte do dono da exploração.

A mesma sorte teve Florim, de 22 anos, que deixou a sua cidade, perto de Bucareste (Roménia), onde uma profissão decente exige muitos estudos e não é, mesmo assim, garantia denenhum desafogo financeiro. Florim chegou há quatro anos a Portugal e vive há ano e meio em Alcobaça, onde já conquistou contrato a tempo inteiro com o produtor de maçã. Tal como Raj, também Florim não perde oportunidade de enviar dinheiro aos seus pais, que se mantêm na terra natal. Mas o jovem romeno já não coloca de parte o sonho de constituir o seu próprio agregado por terras lusas. Brinca e diz que só não tem filhos ainda porque a Ana (esposa) não quer.

Ao JORNAL DE LEIRIA, o proprietário do pomar justifica por que razão tem vindo a recrutar tantos cidadãos estrangeiros. Se há décadas era relativamente simples encontrar na região mão-de-obra disponível para ajudar nas colheitas da fruta, com a emigração, com a falta de interesse pelos trabalhos no campo, e face ao grande aumento da dimensão das explorações, tornou-se necessário recorrer ao serviço de empresas de recrutamento, que têm, por sua vez, recorrido à contratação de trabalhadores estrangeiros, muitos deles oriundos de países asiáticos.

E se no seu caso bastava uma dezena de estrangeiros para completar a equipa de trabalhadores em campo, este ano foi necessário contratar 50, quase tantos como portugueses. E outras circunstâncias também mudaram, conta o proprietário da exploração. Se antes era relativamente simples para as empresas de recrutamento encontrar pela região casas disponíveis para arrendamento, de forma acolher quem chegava de fora para se dedicar à colheita, presentemente, devido à maior quantidade de forasteiros e também devido ao boom do sector imobiliário, com um acentuado aumento de preços de rendas, têm sido os próprios proprietários das explorações a responsabilizar-se por criar instalações para acolher os seus colaboradores.

Este empresário orgulha-se das condições das instalações que proporciona aos seus colaboradores e também dos valores pagos a cada um deles, que não fazem distinção entre quem é português e quem vem de países onde as condições de vida possam ser mais adversas.

Equipas esticam dez vezes mais

Jorge Soares preside a Associação de Produtores de Maçã de Alcobaça, que actualmente é constituída por 23 organizações, que correspondem a cerca de 500 produtores (alguns são também produtores de pêra) e que, no seu conjunto, são responsáveis por cerca de 1500 hectares de exploração.

O presidente da associação explica que a escassez de mão-de-obra durante a fase das colheitas é uma questão antiga. Porque, dependendo da dimensão da exploração e dependendo do seu nível de maquinização, a colheita pode exigir a colaboração de dez a 12 vezes mais pessoas do que aquelas que habitualmente são necessárias nas empresas.“Isto porque a colheita tem de ser realizada num momento curto. No momento óptimo. De forma a que a fruta seja colhida no seu ponto máximo de qualidade e de sabor”, salienta Jorge Soares.

Sucede que, nas explorações com menor dimensão, nas pequenas e médias empresas, de formato mais familiar, a maior componente da mão- -de-obra na fase da colheita da fruta ainda é assegurada pela família, ou pelos vizinhos, que tiram férias para esse efeito. Todavia, à medida que as explorações se tornam maiores e mais profissionais, é necessário recorrer a vários tipos de mão-de-obra, expõe o presidente.

“Além da mão-de-obra residente, que trabalha no pomar permanentemente ao longo do ano, e que, por ser especialista, acaba por controlar o resto da equipa, existe nesta fase um conjunto de pessoas– e que correspondem à maior fatia de recursos humanos neste período – que são domésticas, aposentados e trabalhadores de outros ofícios e que aproveitam os trabalhos nos pomares para aumentarem os seus rendimentos”, aponta Jorge Soares.

Ao contrário da pêra, cuja colheita é feita em Agosto, a apanha da maçã não costuma contar muito com a colaboração de estudantes. Porque há variedades que só são colhidas em Outubro, quando as aulas já começaram, justifica o presidente. Assim, quando a produção é bastante e a mão-de-obra local não é suficiente, a opção das maiores explorações é recorrer a empresas de trabalho temporário, que reforçam as equipas com pessoas oriundas da Tailândia, do Nepal ou do Paquistão, exemplifica Jorge Soares. São gente que procura a nossa região para trabalhar, mas que também tem por hábito fazer outro tipo de colheitas noutras regiões do País, como Alentejo e Ribatejo, salienta o presidente.

Mecanização para superar a dificuldade

Jorge Periquito, director da Frubaça, cooperativa de hortofruticultores, também reconhece que encontrar recursos humanos disponíveis para trabalhar no campo é difícil. E observa que a situação se agravou nos últimos anos, como resultado da emigração de muitos jovens, e até de pessoas menos jovens que antes trabalhavam na agricultura. “As produções têm crescido e, quando mais precisávamos de mãos para trabalhar, é precisamente quando estas diminuem”, lamenta o responsável pela Frubaça.

Jorge Periquito explica que muitas explorações têm recorrido a empresas de recrutamento de pessoal que conseguem contratar asiáticos, vindos da Índia, do Paquistão, do Bangladeche e do Nepal. “Trabalham na colheita da laranja, da pêra, da maçã, do morango, e assim vão tendo rotação pelo País e garantia de trabalho quase todo o ano entre as diferentes culturas”, realça o director. “São empresas devidamente legalizadas”, assegura o responsável pela Frubaça. “Temos tido a preocupação de trabalhar com empresas idóneas, que nos dão garantias de que os trabalhadores são cidadãos devidamente legalizados”, sublinha ainda.

A maioria destes colaboradores são homens, que nem sempre falam bem Português, por vezes nem mesmo Inglês, mas que têm no seu grupo alguém mais fluente que assegura a comunicação. Têm o alojamento garantido ou pelas empresas de recrutamento ou pelos produtores que já começam a criar as suas próprias instalações de acolhimento. Jorge Periquito lamenta que em Portugal, ao contrário de outros países, como a Dinamarca, por exemplo, não exista uma cultura de colaboração dos jovens estudantes nesta época de colheitas. Entre nós, aponta Periquito, os portugueses optam mais por trabalhar em cafés e restaurantes durante a época de Verão. E há até quem, mesmo estando desempregado, não queira trabalhar no campo.

A solução, explica Jorge Periquito, está no maior investimento na mecanização das explorações. Não há máquinas que substituam a colheita, mas há mecanismos que auxiliam o processo, expõe o director da Frubaça.

Turismo absorveu gente do campo

Na Companhia Agrícola do Sanguinhal, no Bombarral, é necessário garantir mão-de-obra para as vindimas e também para a apanha depêra. Por ter à sua responsabilidade estes dois tipos de culturas diferentes, Carlos Fonseca está confortável para tecer comparações. Quanto à colheita da pêra, por se realizar em Agosto, pode sempre contar com a colaboração de alguns estudantes, que aproveitam o trabalho no Verão para juntar algum dinheiro.

Mas como os concelhos do Bombarral e do Cadaval, juntos, são responsáveis por cerca de 80% da produção de pêra que se faz em Portugal, são necessários não só estudantes destas regiões, como de outros locais mais distantes do País. E não só. Uma quantidade tão grande de pêra para ser colhida num curto período de tempo exige a contratação de estrangeiros, que chegam por intermédio de outras empresas. Alguns oriundos de Leste e outros da Ásia. E há também alguns trabalhadores que são naturais da região, mas que são cada vez mais difíceis de encontrar, expõe o responsável pela Companhia.

Porquê? Porque a situação económica melhorou nos últimos anos e porque o boom que se sentiu no turismo absorveu muita da mão-deobra que antes se dedicava aos trabalhos no campo, defende Carlos Fonseca.

No caso das vindimas, que estão prestes a arrancar por estes dias, ainda se estão a formar equipas de trabalho, refere o empresário, que explica que, apesar da quebra esperada para este ano, de cerca de 40%, é sempre necessário colocar muita gente nas vinhas. Se a vindima da uva tinta é feita com máquina, já a vindima de uva branca é feita à mão. E para cerca de 70 hectares em produção será sempre necessário construir uma equipa de 30 pessoas, explica Carlos Fonseca. E quer no caso das pêras quer no caso das uvas há sempre quem não volte ao trabalho depois do dia de pagamento, frisa o empresário.

Explorações pequenas, problemas grandes

Ricardo Borges, responsável pela Adega Cooperativa da Batalha, explica que as condições meteorológicas que se fizeram sentir este ano ditaram que a vindima tenha de ser feita duas semanas mais tarde do que é habitual. Este atraso, aponta, faz com que a maior parte da mão-de-obra que habitualmente costuma realizar as vindimas já não esteja disponível.

 

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