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Palavra de Honra | Independentemente do que aconteça na nossa história como sapiens, o planeta sempre seguirá com o seu curso

19 abr 2026 09:16

Natércia Lameiro, artista

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Já não há paciência ... para o discurso do “EU”. Vivemos numa época onde o Ego e o discurso constante de priorizar-se a si mesmo distancia-nos do sentido de comunidade e da responsabilidade afetiva para com o outro. Não digo com isto que não seja importante o auto cuidado. Mas muitas vezes esperamos que a comunidade nos cuide incondicionalmente sem dar nada em troca. E isso deixa de ser cuidado e passa a ser um serviço só unidirecional. 

- Detesto… quando me dizem “Não posso pagar mas sei que o fazes pelo amor à arte” ou “Não te posso pagar mas dou-te visibilidade nas redes” ou “Não te posso pagar mas isto vai ser uma boa experiência para ti”. Adorava ver as pessoas terem este discurso também com cirurgiões, policias ou advogados. “Olhe desculpe, não tenho dinheiro para o pós operatório mas vou subir aqui um story no insta e posso mencioná-lo em troca do seu serviço”.

- A ideia… de que a presença do ser humano na terra corresponde a nada mais do que a uns meros segundos na idade do nosso planeta, dá-me tranquilidade porque faz-me acreditar que independentemente do que aconteça na nossa história como sapiens, o planeta sempre seguirá com o seu curso. Seja ele qual for.

- Questiono-me... tendo em conta que as baleias respiram voluntariamente, se para elas respirar é como para nós ter de ir à casa de banho. Acordo a meio da noite e penso “deveria ir lá cima tomar um pouco de oxigénio”.

- Adoro…estar no fundo do mar, tumbar-me na areia de barriga para cima e ver como os raios de sol furam a água criando estas linhas infinitas de luz. Ver os cascos dos barcos e as patas das gaivotas desde baixo ou um cardume de peixes desfazer-se e reagrupar-se como fogo de artifício. 

- Lembro-me tantas vezes… a meio da noite das minhas paralisias faciais e ponho-me a fazer muitas caretas só para confirmar que não voltei a ter a cara paralisada. 

- Desejo secretamente… poder ser uma árvore em eventos sociais e que as pessoas me deixem simplesmente existir, contemplando a beleza nos detalhes e as dinâmicas sociais que me rodeiam sem que me interrompam com a necessidade de quebrar o silêncio ou de tentar “deixar-me mais à vontade”.

- Tenho saudades... de poder estar perto do mar.

- O medo que tive… quando deixei muitas vezes de poder ver a luz, as cores do mundo e de sentir em absoluto. 

- Sinto vergonha alheia... quando alguém tenta ser “cool” ou aparentar ser algo que não é e acaba por fazer um pouco o ridículo. 

- O futuro… é agora. Gosto muito de pensar a longo prazo, seja pessoalmente ou a nível de comunidade, geopolítica ou evolução biológica. Mas uma coisa tenho sempre presente, é o Agora que determinará tudo o que se segue. 

- Se eu encontrar… a razão para os narvais terem um dente no meio da cabeça, mudo de profissão. Sim um dente, não é um corno. Penso sempre que estando a temperaturas tão baixas e picando gelo com aquele dente devem ter a sensação de cérebro congelado o tempo todo. Brrrrr!

- Prometo… não prometer nada que não possa cumprir. 

- Tenho orgulho... no meu pai, na minha mãe, no meu irmão, nos meus avós e tias, nos meus amigos, de mim e na cultura do território onde nasci.