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Ovídio de Sousa Vieira: “Trago o meu telemóvel muito recheadinho de contactos”

17 jun 2021 12:05

Ovídio de Sousa Vieira, novo programador cultural do Município de Leiria, que vai trabalhar no Castelo e no Teatro Miguel Franco, quer apresentar uma linha de programação desafiante: "Não sou um programador de entretenimento, mas um programador de desafios. Gosto de projectos alternativos"

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Ovídio de Sousa Vieira: "Vejo-me mais como um mediador cultural do que como um programador cultural"
Ricardo Graça

O que vê em Leiria para elogiar, e, por outro lado, para melhorar?
Ainda é muito cedo para responder. Estou aqui desde o dia 17 de Maio. Ainda não tive tempo de visitar museus, quero visitar, quero conversar com os meus colegas das outras áreas, até porque este não é um trabalho isolado, um trabalho solitário, isto só tem razão de ser se for um trabalho conjugado com todas as forças e um trabalho sério. O que vejo em Leiria é realmente muita força. Ainda não tive tempo para fazer uma leitura do território, para fazer uma leitura das pessoas. O que vejo são forças culturais com muita vontade de trabalhar. Leiria tem vontade. E isso é uma mais-valia. Como dizia o Saramago, é preciso sair da ilha para ver a ilha. E talvez às vezes olhares exteriores possam permitir acrescentar algum valor. Não vou fazer milagres. Não venho descobrir a pólvora. Principalmente, aqui num Castelo que está carregado de história.

As funções de programador cultural no Castelo de Leiria, que assumiu em Maio, vão implicar um conceito, uma ideia, uma estética de programação? Ou o objectivo é uma programação generalista e transversal?
Neste momento estou a trabalhar só no que estava já programado. Há que o fazer. E tem resultado. Mas pretendo apresentar uma linha de programação desafiante. Vejo-me mais como um mediador cultural do que como um programador cultural. Acho que a Cultura deve estar sempre a desafiar o outro. Devemos estar sempre a ler os outros e a desafiá-los. Posso, por vezes, não ser fácil, porque não sou uma pessoa que só dê aos públicos aquilo que eles pretendem, ou seja, não sou um programador de entretenimento, mas um programador de desafios. Gosto de projectos alternativos. Pôr a minha cabeça a prémio e ser um pouco atrevido. Sabendo medir os riscos, porque não posso pensar e estar a fazer uma programação totalmente vanguardista e alternativa e depois não ter espectadores. Tem de se ir nivelando. Depende também daquilo que sejam as directrizes e instruções políticas.

Vai ficar pelo Castelo ou vai descer à cidade e programar, também, por exemplo, o Teatro Miguel Franco?
Nesta primeira fase, [vou] estar a trabalhar mais aqui. E depois, como é lógico, não se vai estar aqui a programar de Inverno, porque não há condições de acolhimento das pessoas. O Castelo vai ser frio, não vai ser agradável. E a ideia é também ir trabalhar o Mercado de Santana e, directa ou indirectamente, o Teatro Miguel Franco, mas em conjugação, tem de ser, com o Teatro José Lúcio da Silva e com o José Pires [director do Teatro José Lúcio da Silva], porque não faria sentido estarmos a fazer concorrência um ao outro.

O que lhe pediram no Município para os próximos anos, tendo em conta, até, o contexto de candidatura a Capital Europeia da Cultura?
No contexto da candidatura não falámos, porque ela tem um conselho executivo e um conselho estratégico. O que o Município me falou, em função dos planos municipais, é vir a apresentar também um trabalho para o Miguel Franco, em conjugação com o José Lúcio da Silva e com todas as estruturas municipais. E espero que também com as não municipais, porque há aí coisas que trabalham com muita qualidade.

Por exemplo?
Orfeão de Leiria, SAMP, Leirena, Nariz... não queria deixar muitos de fora... escolas de dança, o CaosArte, o Te-Ato, este festival de música do Orfeão de Leiria. Não pode um programador alhear-se de toda esta força ou de um programa de excelência como o Orfeão de Leiria apresenta.

Mas ia falar do desenvolvimento de um projecto para o Teatro Miguel Franco.
Uma dinamização cultural para todo o Mercado de Santana. Acho que o Miguel Franco poderá contribuir, tanto interiormente como exteriormente, porque aquele interior daquele Mercado é apetitoso para trabalhar. Assim como o centro histórico. Tem coisas fabulosas para se poder aproveitar. A rua Direita é uma rua com um potencial enorme, tem uns bares, uns restaurantes, portanto, pode ter ali umas actividades. E há aí umas escadarias lindíssimas. Às vezes, parece que estou no Bairro Alto, tem algumas semelhanças. E a relação com o Castelo, também. Vejo em Leiria muitas possibilidades de fazer coisas muitos giras. Leiria, em algumas associações, já não é uma brincadeira. Em termos profissionais, há aqui indústrias criativas. Por exemplo, a Omnichord, na música. Todas estas dinâmicas têm de se conjugar. Sabem fazer, têm experiência, têm conhecimento, têm provas dadas, há que aproveitar esse trabalho e apoiar.

Vem com um orçamento, a função?
Não, isso vai ter de ser discutido, em termos municipais. Neste momento, tudo o que está a ser feito, está a ser feito porque já estava planificado, já estava trabalhado.

Foi convidado a vir trabalhar para Leiria?
Não, não fui. Candidatei-me.

E porquê?
Porque não estava bem em Ponte de Lima. Comecei a sentir uma pressão política demasiado grande, que eu não entendia. Que procurava condicionar. E tentava intrometer-se. Estava a fazer muito mal à minha saúde mental e ao procurar encontrei Leiria e candidatei-me. Tenho um contrato de mobilidade com o Município de Leiria, de 18 meses, mas o meu lugar é em Ponte de Lima. Esta mobilidade pode consolidar, ou não, dependendo das três partes interessadas. Há um acordo entre três partes: os dois municípios e eu.

Poderá haver pessoas a perguntar se não existiriam quadros em Leiria com o perfil e a capacidade para desempenhar as mesmas funções de programador cultural.
Acredito que é capaz de haver melhores do que eu, não faço ideia, mas temos de nos pôr à prova uns com os outros. Eu candidatei-me. Num processo transparente, publicado. Fiz entrevistas, apresentei currículo.

Mas era um concurso de mobilidade interna.
Porque é que os municípios recorrem à mobilidade interna? Porque conseguem conhecer o trabalho das pessoas e não começar do zero. Não estou a dizer que não haja aqui gente mais capaz do que eu.

Vir de fora do concelho pode ser uma vantagem?
Sim, porque posso estar a fazer leituras externas. Não estou a dizer que vá dar a volta ao que quer que seja. Posso é acrescentar valor, posso estabelecer pontes. Como já estabeleci contactos entre estruturas de Leiria e estruturas de fora. Ou seja, os meus contactos a partir de agora estão ao serviço de Leiria. Eu trago o meu telemóvel muito recheadinho de contactos bem posicionados na área cultural do País e mesmo para se chegar internacionalmente a alguns pontos, nomeadamente, aqui a vizinha Espanha.

Era útil existirem mais programadores culturais a trabalhar para o Município?
Acho que sim, podiam ser mais-valias. E mais técnicos. A parte técnica na área cultural precisa sempre de muita gente. A parte técnica e a parte de produção. Se se ganhar a candidatura a Capital Europeia da Cultura, vai exigir muito, mas não é só dos programadores e dos políticos, é da população. A própria Comissão Europeia só vai dar o título a quem demonstrar que a população está envolvida. A Cultura tem de ser uma forma de estar na vida. Temos de fazer com que uma comunidade se reveja na Cultura para definir o seu futuro. Isso é que é importante. E penso que aí Leiria tem muitas cartas a dar, porque tem, realmente, activos muito fortes e pessoas muito activa.

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