Sociedade

Orlando Cardoso, poeta, historiador, pedagogo, epicurista

8 out 2026 11:00

Antigo director do JORNAL DE LEIRIA e defensor de causas da região, Orlando Cardoso fez da liberdade a mira da vida. Brincava que chegava sempre um mês atrasado às revoluções. Não era praticante de religião ou política. Era um ser livre

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Orlando Cardoso recusava dogmas e rituais impostos, mas sabia encontrar e vivenciar a dimensão espiritual em locais de recolhimento autênticos
Foto cedida por Fernanda Cardoso

Exilou-se em França, em Junho de 1968, e falhou o Maio de 68, soube do 25 de Abril pela rádio, quando estava nos Países Baixos, e falhou o primeiro grande 1.º de Maio em Portugal.

Por estas razões, gracejava que chegava “sempre um mês atrasado às revoluções”.

Orlando Cardoso, pedagogo, jornalista e historiador, antigo director do JORNAL DE LEIRIA e do Correio de Pombal, faleceu a 30 de Setembro, aos 77 anos, deixando o legado de uma vida plural, gravado na cultura e na memória de quem o conheceu.

Natural do Souto da Carpalhosa, no concelho de Leiria, tinha um espírito irrequieto, guiado pela busca do conhecimento e por uma profunda humanidade.

Aos 16 anos estreou-se no jornal República, a fazer crítica literária e de cinema “para ganhar alguns tostões”.

Aos 19, depois de publicar artigos no jornal República, que o puseram no radar da PIDE, teve de sair a salto do País.

O exílio durou seis anos. Primeiro, a França, em Junho de 1968, onde foi carregador no mercado de Les Halles e tarefeiro hospitalar; depois, a Alemanha; por fim, os Países Baixos, onde foi electricista e se matriculou em Literatura Portuguesa na Universidade de Amesterdão.

Teve como professor outro leiriense, António José Saraiva, de quem ficaria amigo.

“Era um grande intelectual, mas uma pessoa extremamente simples. Começava-se a falar com ele e as horas passavam sem nos apercebermos”, recordou ao JORNAL DE LEIRIA, em entrevista concedida em Outubro de 2017. Regressou em Junho de 1974, de comboio, e em Santa Apolónia esperava-o “um molho de 25 cravos vermelhos”.

Licenciou-se em História na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e foi docente de História e de Português em Pombal e em Leiria.

Acácio de Sousa, historiador e colega de curso, guarda dele a imagem de alguém com “um ar muito circunspecto, mas muito irónico, com um humor muito sibilino”.

O exílio, acrescenta, “dava-lhe ali alguma autoridade para falar com os amigos, não imposta, mas fruto de um saber e uma experiência notável”.

Privou com Vasco Graça Moura e Natália Correia e manteve-se sempre fiel às suas convicções.

“Tenho o coração à esquerda”, dizia, avesso a rótulos. “Não sou praticante de nada, nem de política nem do resto. Sou um homem livre.”

O agnóstico que acendia velas

Agnóstico convicto, mantinha uma relação sagrada com a beleza e uma espiritualidade quase religiosa.

Fernanda Cardoso, a companheira de 30 anos e “de todas as horas, das boas e das más”, recorda que, nas idas à sua amada Roma, Orlando visitava “como se fosse um ritual religioso” a “Pietà”, de Miguel Ângelo, na Basílica de São Pedro, o “Êxtase de Santa Teresa”, de Bernini, na Igreja de Santa Maria della Vittoria, e o túmulo do cardeal de Alpedrinha, D. Jorge da Costa, na Igreja de Santa Maria del Popolo, onde repousa.

Rejeitava, acima de tudo, o lado institucional e mercantil do culto, mas preservava um profundo respeito pelo sagrado e pela poesia dos gestos.

“Passava por Fátima, mas ali, para ele, o espiritual não existia. Era apenas um negócio. Seguia caminho e encontrava o santuário de Nossa Senhora da Ortiga. Entrava como se fosse um grande crente e acendia uma velinha.”

Para Fernanda, este contraste revela a liberdade e a sensibilidade de Orlando Cardoso, alguém que recusava dogmas e rituais impostos, mas que sabia encontrar e vivenciar a dimensão espiritual em locais de recolhimento autêntico.

No quotidiano, a companheira descreve-o como um epicurista, excelente cozinheiro, famoso pelas suas receitas de arroz-doce e de ratatouille, enófilo, apreciador de viagens, música e poesia. Paixões que altruisticamente partilhava com Fernanda e com todos os que lhe abrissem o coração.

“Era um fazedor de encontros. Foi o que fez de melhor na vida. Era um intelectual, mas colocava-se sempre ao nível dos outros. Tudo para ele eram humanidades”, diz, acrescentando que “era um homem livre que respeitava a liberdade dos outros”.

Fotografia cedida por Fernanda Cardoso

“Não sou director de jornal, sou directores de jornais”

Também na imprensa regional deixou uma marca. Esteve no JORNAL DE LEIRIA em 1986, a seguir à aquisição pelo Grupo Movicortes, e dirigiu em simultâneo o semanário e O Correio de Pombal, em cumplicidade com o administrador do grupo económico, José Ribeiro Vieira, um dos seus grandes amigos.

Ajudou a modernizá-los e geria a informação com rigor e liberdade.

“Não sou director de jornal, sou directores de jornais”, dizia a brincar. “Tivemos sempre um papel pioneiro no reforço tecnológico do jornal”, recordou na mesma entrevista, orgulhoso das inovações, como o advento da cor.

“Foi um período muito interessante.”

Com a isenção que reivindicava, passou incólume por 20 processos, em Leiria e em Pombal, sem nunca ter sido julgado. “É complicado mantermo-nos livres e dignos”, alertava.

Fernanda Cardoso descreve Orlando e José Ribeiro Vieira como “irmãos e compadres”, capazes de manter cumplicidade até na divergência de causas para Leiria.

E faziam-no sem pressa, a “conversar e a desconversar”.

“Gosto de imaginar que, agora, continuam a conversar e a desconversar na outra dimensão, onde quer que estejam.”

O escritor multifacetado

Seria o seu primeiro romance histórico de grande fôlego e tinha como título provisório O Meu Cardeal.

Orlando Cardoso ficou fascinado pela figura de D. Jorge da Costa, cardeal de Alpedrinha, um notável do Renascimento português que teve um enorme relevo na Curia Romana e no Vaticano.

Fernanda Cardoso auxiliou-o na pesquisa acerca daquele homem influente junto dos Papas, que “mexia os cordelinhos em Roma para defender os interesses de Portugal” e exercia diplomacia e influência no xadrez europeu da época.

Conta que, para lhe dar corpo, o autor, que assinava Orlando da Cruz Cardoso, fez uma minuciosa pesquisa documental em Portugal e em Itália e não dispensou a visita aos lugares históricos de Roma, incluindo o túmulo do cardeal, na Igreja de Santa Maria del Popolo.

A iniciativa juntava as suas duas grandes vocações, a História e a Literatura.

“Por exigir uma escrita de grande fôlego, guardou-a para a fase mais madura da vida”, recorda Fernanda.

O manuscrito ficou incompleto, com mais de 100 páginas escritas, antes de o avanço da doença o impedir de o concluir.

Ao longo da vida, redigiu uma obra extensa, que lhe valeu vários prémios.

Com Trinta Dias em Maio, recebeu o Prémio de Poesia Ary dos Santos, com o livro de contos Xeque-Mate, o Prémio dos 600 Anos dos Bombeiros Portugueses, com As Uvas de Labéria Gala, de 2008, o Prémio de Literatura do Instituto Politécnico de Leiria.

Na investigação, deixou-nos João de Barros - Um Cortesão em Terras de Litém e Macau e o Oriente no Espólio de Lara Reis, e foi co-autor do Roteiro Leiria e de duas obras infantis sobre a lenda de Zarah, a Moura Encantada.

 Em 2017, ao assinalar mais de cinco décadas de actividade literária, publicou Círculo de Sombras, Carta Leiriense de Fradique Mendes, 50 poemas sobre um encontro imaginado entre Eça de Queirós e uma personagem que também nunca existiu.

Sem rodeios, admitia que tinha “paixão pela poesia, pelas mulheres, por Leiria e pelo seu castelo”.

Paulo Moreiras e João Lázaro evocam Orlando Cardoso: um homem de letras observador e crítico do tempo histórico e um mestre de sorriso franco, que fazia de cada encontro uma lição.

Moreiras, também escritor e antigo jornalista no JORNAL DE LEIRIA, recorda que, “aquando da publicação do livro Trinta Dias em Maio, de 1992, um dos membros do júri, Casimiro de Brito, escreveu no texto introdutório que Orlando Cardoso pertence à família dos poetas do essencial”.

Sublinha ainda que Brito, também poeta, descreveu toda a essência do trabalho literário de Orlando da Cruz Cardoso, da poesia ao conto, da literatura infanto-juvenil à literatura de viagens.

“Um escritor perspicaz, atento ao mundo que o rodeava, mas também observador crítico do tempo histórico de outras eras, onde, através do seu olhar perscrutador, soube procurar inspiração para muito daquilo que escreveu”.

Casimiro de Brito, aponta, conseguiu captar essa característica em Orlando Cardoso, evidenciando que “os seus textos são o resto de uma longa experiência de vida.”

Essa longa experiência de vida permitiu ao autor leiriense trabalhar em diferentes registos literários, buscando o essencial na matéria a trabalhar, não se perdendo ou desviando do seu caminho, afirma ainda.

“A sua poesia é um claro exemplo do uso ponderado das palavras, das imagens e da sensibilidade, presente em cada verso. Toda a sua poesia é minimalista em termos formais, contudo carregada de emoção, sentido e voz própria.”

Orlando Cardoso também trabalhou o conto, alguns deles de recorte histórico, onde se verifica uma forte presença feminina na sua obra.

“Nem de propósito, a sua incursão pelo género infanto-juvenil com Zarah, a Moura Encantada de Leiria, também cruza estes dois elementos, a História e o Feminino. Além das obras dedicadas ao ensaio histórico sobre pessoas ou instituições, primou igualmente pelo gosto das viagens, nas deambulações que realizou no distrito de Leiria, com Terra de Pinhal e Mar (2008), destacando várias das suas pérolas em crónicas que abordavam temas como o licor de Ginja de Alcobaça, o pão-de-ló de Alfeizerão, as brisas do Lis ou a arte nas Caldas da Rainha, sem esquecer os vários roteiros em que colaborou.”

Em 2022, escreveu um livro dedicado a Leiria.

“Aqui chegados, importa destacar outro pormenor menos conhecido do seu percurso artístico e literário. Orlando Cardoso também foi fotógrafo e nessa qualidade colaborou no livro Souto da Carpalhosa: subsídios para a sua história (2006), de Albino de Jesus Silva (Lino).”

Dos tempos no JORNAL DE LEIRIA, Paulo Moreiras guarda memória das conversas sobre Literatura Portuguesa, ao longo dos anos.

“Discutindo os trabalhos que cada um entretanto ia desenvolvendo, entre outras minudências, sonhos e aspirações. Para terminar, socorro-me novamente das palavras de Casimiro de Brito, quando afirmou que o fio da voz literária de Orlando Cardoso ‘tem sem dúvida um lugar (discreto como convém) na nossa poesia’. Não obstante, a sua voz, acima de tudo, ocupa um lugar de destaque na cultura e na literatura leiriense, sem dúvida. Saibamos não a deixar cair no esquecimento.”

Foto cedida por Fernanda Cardoso

Mestre da vida

No caso do psicólogo clínico e director do grupo Te-Ato, João Lázaro, a recordação é de um mestre. Um homem que lhe “tropeçava as palavras e os gestos” por cada vez que se cruzavam na Livraria Arquivo, em Leiria.

“Primeiro vinha o sorriso cristalino que fazia adivinhar um contentamento no encontro que me escapava de todo. Depois uma mão aberta que vinha por ali fora a puxar-lhe o corpo para um aperto de mão franco e um braço que me enlevava pelo ombro e que me atraía para tocar um de peitos que me acolhia numa fraternidade desusada.”

Vinham depois, conta, “as palavras de cortesia do costume que aos costumes dizia nada. De si nada transparecia como se de pouca monta fosse a sua vida, mas parecia-me sempre sinceramente sôfrego de saber de mim, do que andava fazendo, do que andaria a ler, escrever, encenar. Eu respondia, claro, titubeante e confuso de merecer assim ser olhado por um homem que eu respeitava tanto.”

A seguir, eram “os comentários do que à nossa cidade e país e mundo todo diziam respeito”.

“Eu debitava umas ideias e o Orlando, serenamente, ordenava os meus dizeres avulso e delicadamente fazia-me pensar melhor, com mais conhecimento e sabedoria. Partia dali sempre a pensar para além do que quando tinha chegado e grato por a vida me ter cruzado com um Mestre assim.”

O Orlando que a irmã recorda

Odília, a irmã mais nova de Orlando Cardoso, recorda o jovem que ele foi, muito antes do exílio e dos jornais. Era um rapaz a viver em Lisboa que escrevia poemas e a quem Odília servia de primeira espectadora e público.

Quando a família Cardoso deixou o concelho de Leiria e foi viver para Lisboa em 1965, fez um novo lar num prédio da CP em Alcântara.

O pai de ambos era chefe na estação de Alcântara-Mar e continuava, apesar da distância, a ocupar o cargo de presidente da Junta do Souto da Carpalhosa, para onde se deslocava nos seus dias de folga.

Orlando, com 16 anos, entrou no Colégio Valsassina e, da sua pena, surgiram os primeiros poemas. Por seu turno, dos 12 aos 14 anos, servia de “cobaia para testar a sonoridade e opinar”.

“Eu achava uma chatice, obviamente...”, recorda. Uma das primeiras “manifestações” literárias do irmão foi compor letras para músicas do grupo Ecos, formado por outros colegas do colégio.

O quarto dos filhos dava para a varanda, com vista para o entrecruzar de linhas férreas e, à esquerda, para a então ponte Salazar, hoje 25 de Abril, ainda em construção.

Era ali que Odília Cardoso, aos 12 anos, se sentava na improvisada plateia e ouvia em primeira mão os poemas de Orlando, também eles, “muitas vezes ainda em construção”, cheios de estrofes e rimas “de amor, sonhos e futuro”.

Recorda “uma rotina feliz e tranquila”, onde todos eram incentivados a ler e a ir ao cinema ao domingo. Vítor, o irmão mais velho com mais oito anos do que a irmã e mais quatro do que Orlando, era “o crescido com ar sério que andava no Técnico”, inseparável do irmão.

O pai considerava que não podiam faltar comida, dinheiro para livros e cinema, mas roupas novas “não eram importantes”.

Do cinema guarda a sessão de domingo à tarde no Cinearte, em Santos, com dois filmes pelo preço de um.

Saíam os três de casa e faziam o caminho a pé pela 24 de Julho, passando pelo Museu de Arte Antiga, nas Janelas Verdes, e seguindo junto à linha de comboio até ao largo de Santos.

“E, mais do que tudo, lembro-me do orgulho e felicidade na companhia dos manos.”

Foi Vítor, que trazia livros e revistas em francês e era apaixonado por Malraux, que lhe deu a ler Voltaire e o seu “dicionário filosófico” aos 15 anos.

“Nunca me esqueço do impacto.” Recorda ainda um artigo dos “Cahiers du Cinéma” sobre “Le Genou de Claire”, que a “baralhou um pouco”, nessa idade.

“Aos 16, 17 e 18 anos, o Orlando viu os poemas publicados no suplemento do Diário de Lisboa e na Crónica Feminina. Lindos poemas de amor, beleza e esperança. Inchei de orgulho e sei que os nossos pais também, mas eram tempos de manifestações paternais discretas.”

A “realidade nua e crua” chegou com a inspecção militar. Foi aprovado para todo o serviço, apesar da bronquite asmática desde os 13 anos.

A mãe “usou todos os recursos da época” e levou-o aos médicos indicados, mas era uma doença crónica, e a família temia que não resistisse.

“Sentimos esta aprovação para a tropa quase como uma sentença de morte.”

Foi para França, depois Alemanha, a, e por fim para Amesterdão. Regressou em Junho de 1974.

Foto cedida por Augusto Mota
Telúrica homenagem

Meu caro Orlando, 
Desta vez partiste e não havia chuva na vidraça. Era Outono e o tempo quente secou as poucas gotas que teimavam em permanecer na janela. Mas, como telúrica homenagem, os olhos ainda húmidos de todos os teus amigos criaram uma lágrima do tamanho do mundo, mundo que soubeste percorrer com palavras justas e ajustadas a cada tempo e a cada lugar. Palavras que, para nosso espanto, te afloravam, fáceis, na ponta dos dedos e que colhias como fruta bem amadurecida para, de seguida, as depositares cuidadosamente no texto, como se este fosse um rendilhado e alvo açafate. Mas olha, por vezes a vida leva-nos por erráticos atalhos que acabam em labirintos de onde é muito difícil sair. Subitamente tudo entristece à nossa volta e um silêncio pesado nem os olhos deixa falar. É como se o espaço e o tempo, como um corpo exausto, se recusassem a existir, obrigando-nos a partir, mesmo que não haja chuva na vidraça. 

Augusto Mota, Ortigosa, 3.10.2026

O professor que não se limitava a transmitir conhecimentos 

Mais do que transmitir conhecimentos, mais do que falar de datas e de acontecimentos históricos, Orlando Cardoso, que leccionou História, mas também Geografia e Português, procurou, ao longo de quase três décadas de docência, estimular o espírito crítico dos estudantes.

Era, dizem antigos alunos e colegas de profissão, também alguém que se distinguia pela calma e tranquilidade com que conduzia as aulas e pela sensibilidade no trato, “sempre cortês e com uma palavra simpática” a dar.

Foi no Colégio João de Barros, nas Meirinhas, Pombal, que Orlando Cardoso fez, praticamente, toda a carreira como docente. Entrou por convite de Walter Branco, fundador e director pedagógico da instituição até ao final do último ano lectivo, que lhe conhecia o gosto pela investigação e pelo jornalismo, e ficou até à aposentação.

“Ensinou muito mais do que datas e acontecimentos: ensinou a olhar para o passado com espírito crítico e a perceber o que nos une ao lugar de onde viemos”, recorda o colégio numa mensagem partilhada na suas redes sociais.

Na mesma linha, Walter Branco conta que Orlando Cardoso “não era um professor de transmitir por transmitir [conhecimentos]. Estimulava à participação dos alunos”. E fazia-o com “muita calma e tranquilidade”.

Foto: Ricardo Graça/Jornal de Leiria

Dinamizou jornal e clube de xadrez

“Tinha um dinamismo sereno”, acrescenta o fundador do Colégio João de Barros, que, conhecedor do trabalho que o professor desenvolvia no JORNAL DE LEIRIA, o desafiou a reorganizar o jornal da escola – A Década – e a ser seu chefe de redacção.

E nessa qualidade, “deu voz às ideias, às curiosidades e à criatividade de tantos alunos”.

Desafiado também pelos responsáveis do colégio, Orlando Cardoso dedicou-se à investigação da vida e obra de João de Barros, considerado o primeiro grande historiador português que é patrono da instituição. Desse trabalho resultou a edição do livro João de Barros - Um Cortesão em Terras de Litém, publicado em 1997.

Por sua iniciativa, dinamizou também o clube de xadrez do colégio, contribuindo para despertar o interesse dos alunos por este desporto, recorda Lina Ferreira Lisboa, professora, que privou com Orlando Cardoso durante todo o tempo em que este deu aulas no João de Barros.

Recorda-o como “uma pessoa extraordinária”, com uma personalidade “forte”, mas “sempre muito calmo”.

“Não precisava de gritar ou de pedir silêncio nas suas aulas. Conseguia transmitir os conhecimentos de forma a interessar os alunos, quase sem recorrer ao manual, porque dominava as matérias”, conta Lina Lisboa, que destaca ainda o seu companheirismo e a atenção aos outros.

“Sabia dizer a palavra certa no momento certo. Não julgava. Compreendia e sabia ouvir. Uma pessoa ímpar e com uma enorme bagagem cultural.”

“Sempre” com o jornal debaixo do braço

Entre os estudantes, Orlando Cardoso é recordado com “um amigo dos alunos”, pela simpatia e pela alegria com que dava as aulas.

Tânia Neto, que foi sua aluna há 33 anos, lembra-se ainda de ele andar “sempre” com um jornal debaixo do braço.

“Em dia de teste fingia ler o jornal e fazia dois buracos no mesmo para perceber quem copiava”, conta a antiga estudante, referindo que a sua irmã também o teve como professor.

“Já tinham passado 13 anos, mas ele falou-lhe muitas vezes de mim. Marcou muitos de nós.”

“Antes de ser professor era um grande amigo dos alunos. Nunca o vi gritar. Excelente ser humano”, partilhou Conceição Louro, num comentário à nota de pesar publicada pelo Colégio João de Barros na rede social Facebook, onde Sónia Pereira, também ex-aluna, descreve Orlando Cardoso como “um ser encantador como pessoa e professor”.

“Fiquei com um gosto por História e a ele o devo. As suas aulas eram sempre uma alegria”, acrescenta Maria João Fernandes.