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O site cultural 'Preguiça Magazine' anunciou hoje a sua 'morte'

29 dez 2016 00:00

"Criaremos uma secção sobre a baba de caracol!"

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Cláudio Garcia, Ricardo Graça, Pedro Miguel e Paula Lagoa, criadores da Preguiça Magazine
Fotografia: Rui Miguel Pedrosa/Arquivo JORNAL DE LEIRIA
Jacinto Silva Duro

Na sua página da rede social Facebook, a equipa da Preguiça Magazine anunciou hoje, dia 29 de Dezembro de 2016, o fim da publicação cultural online, não revelando se se prepara para a apresentação de um novo projecto editorial.
"Aos fãs, amigos e duendes queridos, informamos com pesar que a Preguiça morreu hoje pacificamente em agonia, rodeada por 70 virgens, na sua mansão da Guimarota, depois de uma luta corajosa contra a cirrose apática. A família pede respeito pela sua dor e privacidade durante o luto."

Em homenagem, republicamos aqui uma entrevista a oito mãos publicada, originalmente, na edição em papel do JORNAL DE LEIRIA, de 11 de Julho de 2013


Cláudio Garcia, Ricardo Graça, Pedro Miguel e Paula Lagoa, criadores da Preguiça Magazine

A Preguiça Magazine acaba de abrir um franchise em Coimbra. O que se segue, o País? A Europa? O mundo? Freixo-de-Espada-à-Cinta?

Coimbra surgiu porque um grupo de malucos como nós se lembrou que a nossa preguiça precisava de uma irmã. Se não for possível crescer para outras cidades talvez apostemos na Galáxia 2000. Acreditamos ser um lugar com muitas histórias para contar e de sucesso, à partida, garantido. Estamos em negociação com a gerência e dada a situação de crise no País, talvez aceitemos pagamento em géneros. Por outro lado, o Pedro Miguel quer avançar até Badajoz. Ainda não é certo porque outros preguiçosos acham que esta pode ser a oportunidade de recuperar Olivença, Ceuta ou até mesmo a ilha da Madeira.

Ainda há quem vos diga que não há nada para fazer pelas bandas de Leiria?
Acreditamos que ainda há quem o diga, mas pelo menos já não o dizem a nós. Isto foi só uma forma de criar um escudo protector, tipo bolha Actimel, contra gente chata que não tem nada para fazer e também não procura o quê.

Quatro amigos, com boas ideias sobre imprensa online, reuniram-se e fez-se um fenómeno de popularidade chamado Preguiça... Afinal, era assim tão simples criar uma publicação que quase toda a gente ama?
Para já, queremos deixar bem claro que não somos amigos e até nem gostamos muito uns dos outros. Isto de ser amado por muita gente ao mesmo tempo é uma coisa complicada. Há as doenças venéreas que ainda ninguém provou não se transmitirem online... Pessoas que amam toda a gente também não costumam ter a vida fácil, às vezes acabam pregadas na cruz e depois é uma chatice para as tirar de lá, são precisos pelo menos três dias. A Preguiça é um conceito bastante óbvio que qualquer pessoa pode desenvolver desde que tenha um ZX Spectrum com ligação à internet pelo telefone. Nós não o fizemos mais cedo porque somos preguiçosos.

Lembram-se como surgiu a ideia de criar a revista online? O que estavam a fazer, o que estavam a falar?
É quase certo que não estávamos a fazer nada de jeito, caso contrário seria impossível ter a conversa que levou ao nascimento da Preguiça. De onde se conclui que, às vezes, a inércia é o melhor remédio, sobretudo se for cultivada ao longo de algumas dezenas ou centenas de almoços. Mas é justo reconhecer que tudo se deve ao Correio da Manhã porque foi lá que dois dos preguiçosos se conheceram. Portanto, se o Vítor Direito não tem fundado o primeiro tablóide português em 1979, hoje não existia a Preguiça Magazine. Dá que pensar, não dá?

O que faz com que a Preguiça seja alvo de tanta popularidade? Os temas inesperados? O tom leve, descontraído e de brincadeira dos artigos? Outra coisa qualquer?
Talvez as pessoas achem piada ao facto de um grupo de idiotas - nós - e mais uma dezena de pessoas - os nossos mais próximos colaboradores - trabalharem sem receber durante seis meses. Com tanto salário em atraso no País, mais o desemprego, é natural haver um sentimento de identificação.

Música, cultura e artes em geral são os temas que caem sob o vosso escopo... quando vamos assistir à criação de mais um espaço, destinado apenas à permacultura?
Por acaso já abordámos a temática, mas primeiro vamos criar uma secção sobre pessoas que batem punho e outra sobre os efeitos da baba de caracol nas tribos nómadas da Sibéria. Também queremos publicar um conjunto de reportagens sobre o facto de estar calor em Julho e os portugueses aproveitarem o fim-de-semana para ir à praia. Sem esquecer os idosos alentejanos que procuram as sombras dos parques públicos e a água fresca das fontes comunitárias. Mas é melhor não adiantar mais nada se não a SIC ainda nos rouba esta ideia.

Se não estivessem ocupados a ser preguiçosos, o que estariam a fazer?
Estaríamos a fazer o que sempre fizemos. A ajudar no serviço religioso da Igreja Maná da Pampilhosa da Serra, a traduzir a obra do José Rodrigues dos Santos para latim, a escrever letras para o Nel Monteiro e a investigar a fundo os benefícios do aloé vera na vida sexual dos mosquitos.

Se vos pedissem para se auto-caracterizarem, que adjectivos escolheriam?
Ricardo Graça: patibular, retrouceiro; Paula Lagoa: encafifada, gangenta; Pedro Miguel: umidífobo, inadimplente; Cláudio Garcia: cambaio, apotropeico.

Certo! E ainda falta muito para enriquecerem?
Não, falta muito pouco. Aliás, combinámos enriquecer no domingo, mas como ficou para de manhã não deu. Adiámos para sexta antes de almoço. Se Deus quiser, fica resolvido.

Perfil
Os preguiçosos de serviço nesta magazine online são Cláudio Garcia, 37 anos, jornalista e baterista, Ricardo Graça, 33 anos, fotojornalista e músico, Pedro Miguel, 37 anos, jornalista, escritor, DJ e autor de programas de rádio e Paula Lagoa, 31 anos, jornalista, empregada de bar e activista dos direitos dos animais. A Preguiça Associação Criativa, face mais institucional da Preguiça Magazine, colabora de 15 em 15 dias com o JORNAL DE LEIRIA, publicando uma página de conteúdos da sua exclusiva responsabilidade. A Preguiça não morreu, vai... andar por aí.

Artigo actualizado a 31-01-2020, às14:58 horas
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