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O que seria de Hollywood sem Leiria?

25 mai 2019 00:00

Adereços, bandas sonoras, explosões e outros efeitos especiais. Saiba que contributo presta a região de Leiria ao melhor cinema de Hollywood

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Daniela Franco Sousa

Da próxima ver que for ao cinema fique atento. Muito atento. É bem provável que esse filme de Hollywood tenha o dedo de gente de Leiria. Como? Das mais variadas formas. Pela nossa região há quem seja responsável pela confecção dos adereços, pelos sons, peor efeitos especiais e até por bandas sonoras de algumas das melhores películas produzidas do outro lado do Atlântico.

O JORNAL DE LEIRIA foi conhecer melhor quem trabalha nos bastidores e que, a partir desta região, lisonjeia o significado de sétima arte.

Sucesso construído partícula a partícula

O que têm em comum películas como Game of Thrones, Aquaman e Alita: Battle Angel? A resposta certa é Sound Particles. E o que é? Trata-se de um sistema criado por Nuno Fonseca, engenheiro e antigo professor do Instituo Politécnico de Leiria, que aplica técnicas de computação gráfica ao design de áudio. E uma das suas funcionalidades mais inovadoras é o conceito de sistemas de partículas, que permite poupar tempo e ampliar a escala, obtendo cenas com muito maior complexidade. Ou seja, consegue construir milhares e milhares de sons em apenas alguns minutos.

Com uma ferramenta de tal forma inovadora, foi um instante desde que Nuno Fonseca terminou o doutoramento, em 2012, até ao momento em que viu o seu sistema de partículas de som ser usado pelas maiores produtoras cinematográficas do mundo. E tudo isto construído numa startup incubada na IDD, em Leiria.

“Ao criar um software deste género, sabia que poderia ser interessante para grandes produções. Mas uma coisa é sonhar e outra coisa, bem diferente, é ver o nosso sonho passar a realidade”, comenta Nuno Fonseca. A maior parte do trabalho é feito em Leiria, por uma equipa de 11 pessoas, a que se junta uma outra, a operar a partir de Londres.

Até agora, as instalações têm servido perfeitamente para desenvolver este negócio. Mas talvez seja necessário mudar de espaço, apenas porque é provável ter de aumentar a equipa.

Nuno Fonseca explica que, neste mercado, é perfeitamente irrelevante a localização geográfica das empresas parceiras. Nuno Fonseca faz duas ou três viagens por ano a Los Angeles, para visitar vários editores, mas a grande parte dos contactos faz-se por “email e afins”.

Há, no entanto, momentos inesquecíveis dessas viagens ao Estados Unidos. Como os dias em que conheceu Benjamin Burtt, responsável pelos sons de Star Wars ou Indiana Jones, ou David Farmer, produtor de som do Senhor dos Anéis. Ou quando se cruzou com o ilustre produtor Steven Spielberg no Cinema Audio Society, em Fevereiro.

Efeitos especiais a partir de Pombal

É natural de Dublin, na República da Irlanda, mas Conor Coughlan vive em Pombal. Trata-se de um especialista em efeitos especiais para o cinema e televisão, que já trabalhou com várias estrelas e realizadores de Hollywood, incluindo Alejandro Iñarritu, que venceu o Óscar de melhor realizador, duas vezes consecutivas com os filmes Birdmane e The Revenant.

No filme Babel, com Brad Pitt e Cate Blanchett, também dirigido por Alejandro Iñarritu, Conor Coughlan colaborou na cena famosa em que uma bala atravessa o vidro de um autocarro e depois o pescoço de Cate Blanchett. Foi um dos melhores efeitos especiais desse ano e custou cerca de dez mil dólares a fazer.

Foi preciso disparar uma bala de vidro muito próximo da actriz e foi preciso mandar vir um vidro especial dos Estados Unidos da América. A cena foi feita três vezes, em Marrocos, quando o termómetro marcava cerca de 40.º

Embora Portugal tenha os técnicos, as paisagens, o clima, a luz e o equipamento certo, a burocracia e os impostos são um problema para a atracção de grandes filmes, apontava Conor Coughlan numa entrevista concecida ao JORNAL DE LEIRIA em 2016.

Músicas que valem prémios

Tem 34 anos e um percurso já povoado de vários êxitos. Chama-se André Barros, mora na Marinha Grande, e é a partir desta cidade que compõe bandas sonoras para todo o mundo. Algumas delas já premiadas.

Depois de editar o seu primeiro álbum em 2013, Circustances, André Barros ainda ficou com alguns temas gravados. Uma vez que o irmão, Carlos Barros, tem uma produtora, decidiu usar músicas suas para algunsdesses vídeos.

“Depois disso achei que a minha música funcionava bem com a imagem e fiz contactos com alguns produtores”, recorda André Barros.

O primeiro sim chegou de uma jornalista independente afegã, Madiha Tahir, que quis a sua música na curta metragem documental chamada Wounds of Waziristan. A partir daí os contactos foram-se sucedendo.

“Já fiz cerca de 25 bandas sonoras, entre curtas e longas metragens, desde ficção ao documentário, e para todo o mundo. Para produtoras dos Estados Unidos, Alemanha, Islândia, França, Índia e Espanha, exemplifica André Barros.

Nos Estados Unidos, o músico tem trabalhado sobretudo para cinema independente, que vai a festivais e onde todo o mundo conhece e partilha o seu trabalho.

“O meu primeiro prémio mais interessante surgiu logo em 2015 com a curta metragem Our Father, da norte-americana Linda Palmer, que teve Michael Gross no papel principal”, recorda André Barros. “Foi considerada a melhor banda sonora no Los Angeles Independent Film Festival Awards.

Embora componha as músicas na Marinha Grande e grave a maior parte das vezes em Lisboa, o músico admite que o seutrabalho e de outros portugueses desta região, acaba por ser mais conhecido lá fora do que no seu próprio País.

Selas e estribos feitos nos Milagres

Gerida por Victor Domingues e os seus irmãos, a Equicouro é uma pequena empresa familiar localizada na Mata dos Milagres, em Leiria. Apesar da sua pequena dimensão, conta com uma experiência de três gerações dedicadas ao negócio da correaria e já conquistou mercado em quase todo o mundo. Europa, Estados Unidos, Canadá e alguns países emergentes já não dispensam os artigos desta empresa que privilegia materiais portugueses.

É sobretudo nos mercados sólidos e mais exigentes que a Equicouro gosta de se posicionar. Para a empresa são precisamente esses mercados que conferem mais conhecimento e mais robustez a esta casa, que gosta de surpreender o mercado pela diferença da sua oferta.

E entre os seus famosos clientes estão os grandes produtores de Hollywood. As selas, as mantas, os estribos e as cabeçadas feitas pela Equicouro entraram em filmes tão conhecidos como Robin Hood, O Príncipe da Pérsia, O Senhor dos Anéis - O Regresso do Rei, Êxodo e Pompeia. São já várias as dezenas de películas feitas com adereços made in Leiria.

O próprio Jerry Bruckheimer, produtor de Os Piratas das Caraíbas, ofereceu ao rei Mohamed VI de Marrocos, pelo seu aniversário, uma sela personalizada feita pelos artesãos da Equicouro.

Viagens constantes para acompanhar as tendências, formação para toda a equipa e investimento nos equipamentos têm feito parte da estratégia desta empresa, com trabalho sobejamente reconhecido em Hollywood.

Para eles Ben. Para nós, Leonel

Ben Martin. O nome diz-lhe alguma coisa? E Leonel Bento? Leonel Bento vive em Leiria, mas é conhecido profissionalmente por Ben Martin, um perito em efeitos especiais.

A longa carreira de Ben Martin, de 52 anos, dedicada ao mundo do fantástico, começou quando tinha apenas 12 anos. O gosto pela ficção científica e o impulso dado por um professor da Domingos Sequeira, que lhe emprestou uma câmara de filmar, foram fundamentais para o arranque do seu trabalho.

Entre os 12 e os 17 anos, Ben e outros dois amigos, Nuno Tristão e João Lopes, passaram todo o tempo disponível numa garagem, em Leiria, onde fizeram argumento, maquetas e até 30 minutos de gravações de um filme, que ficou por terminar.

Ben fez mais tarde das telecomunicações a sua profissão principal, mas nunca deixou de estudar nem de se inteirar sobre os vários programas que lhe permitiam trabalhar os efeitos especiais. Tanto foi o conhecimento acumulado e os contactos que entretanto foi tecendo neste ramo, que começaram a chegar- lhe propostas concretas de participações em filmes.

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