Sociedade

O dia (e a noite) em que o pesadelo se tornou realidade

19 out 2017 00:00

Dificilmente a tarde e noite dos dias 15 e 16 vão ser apagadas da memória das populações de Alcobaça, Marinha Grande e Pombal.

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Vermelho. Quente. Fumo. Nevoeiro. Gritos. Choro. Sirenes. Desespero. Em cada rosto, em cada rua, em cada localidade. Entre S. Pedro de Moel e Praia da Vieira a tragédia aumentava com a velocidade do vento que tornava cada chama mais incandescente. O fogo parecia ter vida. Quase nada o podia travar.

Os bombeiros, poucos para acorrer a todos os focos de incêndio, corriam em várias direcções a tentar salvar pessoas e casas. A GNR tentava impedir a circulação automóvel nas estradas cortadas pelas labaredas incandescentes. Mesmo assim, houve vias abertas que poderiam empurrar as pessoas para o fogo. Isto porque a velocidade e mudanças constantes da direcção do incêndio tornava impossível prever os locais mais perigosos.

Depois de passar por S. Pedro de Moel e arrasar o Pinhal de Leiria, o fogo seguiu a estrada atlântica até chegar à Praia da Vieira. Várias habitações foram evacuadas e também, em diferentes momentos, os parque de campismo da Praia da Vieira (arderam tendas e caravanas), das Paredes e do Pedrógão.

O presidente da Junta de Freguesia tentava perceber o que se passava e sempre que conseguia efectuar chamadas – o que nem sempre foi possível – informava da tragédia. “O lar na Bajanca foi evacuado”, revelava, com um ar desolado ao ver as chamas junto à ponte das Tercenas a colorir o rio de uma cor estranha. Ana Cláudia Filipe vive perto do parque de campismo.

A GNR bateu-lhe à porta e deu ordem de retirada. Pegou na filha pequena e fugiu, com as duas gatas, para a Praia do Pedrógão. O risco das chamas chegarem perto da casa era iminente. O marido ficou. “Decidiu ficar para trás com outros vizinhos para tentarem proteger as casas da zona.” Com as comunicações a falharem constantemente, a aflição de saber notícias foi grande. Depois de horas refugiadas no café Quebra-Mar, na Praia do Pedrógão, o casal proprietário deu-lhe abrigo em sua casa. No entanto, horas mais tarde, as chamas aproximaram-se e voltaram todos para o café, junto ao mar. Eram 6 da manhã.

A estrada atlântica só foi reaberta no dia seguinte, perto da hora do almoço. Quando regressaram à Praia da Vieira constataram a destruição. O vermelho das chamas da noite anterior deu lugar a um cenário cinzento e triste. O pó das cinzas ainda pairava no ar, assim como um calor estranho e um cheiro imenso a floresta queimada. “Mesmo hoje, três dias depois e com chuva, ainda há cepos a fumegar. Ver este cenário arrepiante é uma tristeza imensa.

Ainda guardamos na memória as imagens dantescas do mar de chamas naquela noite perto de casa e esse facto temnos afectado, sobretudo a minha filha que ficou com bastante medo”, revela Ana Cláudia.

Cenário lunar
Hoje, quando faz o trajecto para a Marinha Grande confessa que sente uma “tristeza imensa” ver que o verde que atravessava diariamente para ir para o trabalho e para a escola da filha foi “substituído por esta paisagem quase lunar e sem vida”.

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