Sociedade

O cabeleireiro que jogou futebol com Eusébio numa equipa de Moçambique

26 fev 2018 00:00

Cabeleireiro, jogador e treinador de futebol, árbitro, cicilista… A vida de Victor dos Santos está repleta de histórias, que recorda com nostalgia no seu salão em Vieira de Leiria, onde aos 78 anos continua a atender clientes

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Raquel de Sousa Silva

Nascido em Vieira de Leiria, aí viveu a infância. À escola primária juntaram-se os primeiros toques na bola, “de pé descalço”. Ainda menino teve de começar a fazer pela vida e foi trabalhar na fábrica de vidro existente na localidade. Aos domingos, ajudava um amigo que cortava cabelos, e foi assim que aprendeu os rudimentos do ofício de cabeleireiro.

Aos 17 anos, Victor dos Santos foi para Machava, uma localidade a dez quilómetros da então Lourenço Marques, em Moçambique. Partiu com o pai e outros quatro colegas, munido de contrato para dois anos, para trabalhar na então Companhia Industrial Vidreira. “Fomos inaugurar a fábrica de vidro”, conta.

Depois de chegar, não demorou muito tempo para que Victor dos Santos integrasse uma equipa de futebol, no caso a da Machava. Depois passou a jogar no Benfica de Lourenço Marques. E foi nesta qualidade que a dada altura integrou a equipa que representava a capital moçambicana nos jogos de futebol.

Da mesma equipa fazia parte Eusébio, então jogador do Sporting de Lourenço Marques. Victor dos Santos recorda a partida em que ambos integraram a equipa, em 1959: “fomos jogar a Namaácha, contra o Olimpique da Tanzânia, que representava este país”.

Terminado o contrato de dois anos na fábrica de vidros, Victor dos Santos fez a tropa, durante dois anos e meio. Nesse meio tempo, o pai e os irmãos, que se lhe haviam juntado, mudaram para África do Sul. E foi para este país que o jovem rumou findo o serviço militar. Chegou a Pretória ainda em 1963.

No início não podia trabalhar - “nem falar sabia, ia para uma barbearia à socapa, para aprender” - mas foi inscrito numa equipa de futebol, a Arcadia Shepherds, onde acabou por jogar seis meses.

Quando a Bloemfontein City subiu para a primeira divisão, Victor dos Santos foi convidado para a integrar. Aceitou e mudou para esta zona. “Na altura não havia equipas profissionais”, conta. “Para cativarem jogadores, as equipas ofereciam-lhes postos de trabalho. Foi assim que consegui a minha barbearia. Assinava pelo clube se me abrisse um salão”.

Findo o tempo como jogador de futebol, Vic dos Santos, como era tratado em África do Sul, fez carreira como árbitro. Desse período, recorda o memorável jogo entre os United Kingdom All Stars e os South Africa Black XI, realizado a 9 de Julho de 1973 naquele que viria mais tarde a chamar-se FNB Stadium (também conhecido como Soccer City Stadium), em pleno Soweto, Joanesburgo.

De um lado, um misto de jogadores britânicos; de outro, uma selecção de jogadores africanos, numa partida que foi a primeira tentativa de fazer o governo sul-africano ver que era possível uma coexistência pacífica entre todos os povos.

“Este jogo foi o auge da minha carreira enquanto árbitro”, recorda Victor dos Santos, que não esperava ser convocado para o apitar, até porque vivia a 500 quilómetros. “A partida foi tranquila”. Não houve tensão, ao contrário do que tinha imaginado, e os britânicos venceram por 3-2.

Em 1979 Victor dos Santos regressa a Portugal. Queria continuar a apitar jogos, ao mais alto nível de preferência. “O então presidente da Associação de Árbitros de Leiria disse-me 'de caras' que não tinha hipóteses, porque tinha mais de 36 anos e vinha de um país racista, pelo que não me reconhecia os diplomas. Entrámos logo em litígi

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