Viver

Ninjas e Princesas: "O que é que eu quero ser quando eles forem grandes"

26 fev 2016 00:00

Primeiro que tudo quero ser vivo. O que, tendo em conta a manteiga que escorre das minhas torradas, não vai ser fácil. Se por algum motivo conseguir adiar a inevitabilidade terrível que é atar as botas, quero estar preparado para ser excepcional

(Fotografia: Ricardo Graça)

Num tempo em que as crianças são super-analisadas e que os pais parecem necessitar de formação ao nível da NASA, numa época em que se diz que pretendemos ter filhos do calibre do CR7, eu digo que, embora me fascine um pouco a ideia de ter um filho podre de rico para eu poder descansar os ossos lá num dos jacuzis enquanto bebo Moët & Chandon de mindinho em riste e viro uns torresmos, não quero saber disso para nada. 

Eu quero é ser um fora de série para os miúdos. Para isso já me estou a mentalizar para tarefas hercúleas como: ir com a Bolachinha ao música para bebés e dar comigo vestido de duende no meio do palco a fazer Bá bá báaaaa brrrrrrrr!!!!

Levar o Xoninhas ao futebol num domingo muito de manhã, com um frio de rachar, atrás do sol-posto, e ele ser suplente, ou pior, ser titular e jogar a lateral-direito e depois fazer a viagem de regresso com alto discurso motivacional. 

Ter de ir com um deles para o ballet, preferencialmente com a menina, ver que ela é um pequeno monobloco bamboleante e dizer que sim senhora, pareces uma bailarina russa, meu amor.  Ser um Clearasil sentimental, quando as borbulhas da adolescência rebentarem.

Contorcer-me disfarçadamente quando apanhar um camafeu enrolado com a minha princesa no meu sofá. Ir buscá-los à rambóia às duas da manhã, mesmo que contrariado por ter de me vir embora tão cedo e ainda vagamente sóbrio. 

Arranjar dinheiro para que eles possam ir para a universidade e para o psiquiatra que me vai ajudar a lidar com a separação com alguma dignidade. Pagar-lhes o casamento com um crédito da Cofidis e tentar não andar de gravata na testa a fazer solos de air guitar ao som de um acordeão.

Inventar a teletransportação para o caso de eles irem viver para longe. Ensaiar uns números bem espectaculares para os netos sem que eles se apercebam muito do avanço galopante das escleroses, artroses e displasias da anca e outras fatalidades piores. Manter sempre a fralda limpa (a minha) e lembrar-me dos nomes deles todos.

Se conseguir concluir estas missões com algum sucesso, tenho a certeza de que a viagem vai ser memorável e que tudo vai correr bem. Eles vão ser extraordinários. O exemplo é uma arma poderosa.

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